Eis, enfim, minha última crônica no jornal A Gazeta, de Vitória, Espírito Santo.
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Pra que sofrer com despedida?
Mara Coradello
Não foram vocês. De modo algum. Nem a ausência de e-mail oriundos de algumas crônicas, nem o excesso resultante de outras. Nem as críticas, nem o que nem poderia chamar de crítica: comentários entreouvidos em mesas de bar, queridos amigos me apontando erros de sintaxe, de gramática, de posicionamentos, de estilo. O que posso dizer, é que por melhor que pareça, tudo finda. O que posso fazer, é agradecer a oportunidade.
E contar que agora tenho dois livros para terminar, muito trabalho em uma pilha que cresce a revelia de minha preguiça matinal e muita vontade de dar lugar a outro alguém. Como Cazuza fala na música Cartão Postal: “Pra quê sofrer com despedida
Se quem parte não leva/Nem o sol, nem as trevas/E quem fica não se esquece tudo que sonhou/Sabe/Alguém quando parte é por que outro alguém vai chegar/Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar...Pra quê sofrer com despedida?”.
Outro(a) cronista, ou quem sabe, pretenso(a) cronista, como eu, vai chegar e trazer novas palavras, novos pontos de vista.
Eu ainda teria o que falar? Talvez. Falar sobre a tristeza de ver aquela livraria, La Selva, da Praia do Canto, fechar. E a descoberta, estarrecida, de que o bairro mais cosmopolita da cidade tem apenas uma livraria. É isso mesmo? Ou ainda falar sobre o fechamento da loja de Cd´s na esquina onde pego meus ônibus, agora substituída por uma loja de roupas masculinas. Sem dúvida um sinal dos tempos.
Poderia ainda falar de amores que não se resolvem, o que me foi pedido pela então editora deste caderno, Ana Laura Nahas, no início de minha colaboração neste Jornal. Só que nestes dois anos e meio mudei. Talvez a potência desses anos tenha sido dilatada pelo auto pensar-me, modo escolhido por mim para escrever as crônicas.
De fato o que posso ressaltar como maior ganho nestes mais de dois anos, foi redescobrir a crônica. Por tentar estar à altura da função, estudei Carlinhos de Oliveira, estudei a adorável Márzia Figueira, estudei Rubem Braga, as crônicas de Hilda Hilst, as de Paulo Mendes Campos, li e reli A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector e abri bem meus olhos para a Cidade de Vitória. Estudei mais gramática, adorei a adrenalina do fechamento, surrupiei histórias alheias e um de meus leitores hoje é meu companheiro de todas as horas. Mas somente de uma coisinha posso me orgulhar: fui absolutamente honesta. E sou honesta ao dizer: adorei este lugar. E continuem valorizando o que não tem exatamente o título de jornalismo, mas é o mais eficaz meio de fotografar o espírito dos tempos: a crônica. Tomara mesmo que a cada dia seja mais valorizado o delicado da vida. Certamente as agruras do primeiro caderno cederão lugar a mais beleza no Caderno Dois. Um abraço a todos.
Mara Coradello pode continuar ser lida na rede, no blog:
www.cadernobranco.blogger.com.br
E meu novo e-mail agora é: coradelloramaarrobagmail.com
posted by MARA CORADELLO 14:33
Penúltima crônica em A Gazeta, depois dessa só Deus sabe aonde vou. E vou por livre e espontânea vontade.
Mas ainda tem a despedida...
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Eu na praia
Mara Coradello
Ah... As sextas-feiras...As semanas só existem para conter as sextas-feiras, pensam alguns, e confesso, às vezes eu também o penso.
Ah...As sextas à noite quando imaginamos o sábado no sol. Costumam ser aquele limiar que antecede o sabor do picolé de limão. O imaginar do sabor. Dois segundos antes.
E às vezes confundimos os sabores só por causa da imaginação.
Ah... A areia de uma praia com o livro favorito e o filtro solar spray gelado.
Ah... O dia de São Nunca. Quando fará sol, não ventará em demasia, você não terá excessivos ciúmes de mim e eu lerei na praia calidamente.
Ah! A arte de ignorar as mulheres hediondas falando alto e brincando de afogamento com seus biquínis errados e de cores que berram mais que elas. E os homens devassos e feios com olhos invasivos. A criança melequenta que passa correndo enchendo meu livro e minha cara de areia. Os berros da mãe dela gritando: Deidison!
Ah... A música tenebrosa que emana dos quiosques. E o vento que nos torna nuggets crocantes, grudados no tal filtro solar de mais de quarenta reais. Que não serve pra nada.
E se serve é pior: as partes em que esquecemos de passá-lo ficarão desconcertantemente vermelhas.
Estaremos coalhados de vermelhidão. E ai! A areia enchendo a casa recém varrida.
O cão que não pôde ir à praia, aproveita e reclama resmunguento. O picolé de limão queimou minha boca.Tenho um bigodinho rosa agora.
Ah...e ainda temos os receios do mar. Não pela sua ancestral e assustadora possibilidade do infinito. Não por suas profundezas e mistérios. Ou ainda pela possibilidade de tsunamis. Antes era assim o medo do mar. Agora tudo está inscrito num bicho geográfico. Numa micose chamada vulgarmente de “pano branco”.
Ah...tomar antibióticos por causa de um inocente mergulho no mar. E acompanhar, esperançosos, o desenrolar das obras à beira-mar.
Ah ...vou fechar as janelas, assistir TV com algum vinho gelado e dormir no sábado todo.
Ah se vou.
maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 18:12
Wanderlust
Mara Coradello
Todas as cidades se parecem em dias de feriado? Talvez. Quem sabe seja algo na expressão das poucas pessoas que vemos nas ruas. A mesma que é mais apropriada nos mendigos, que enfim, estão em dias seus. Dias de não fazer nada. Alijados de nossas tarefas diárias, temos tempo de ver melhor esse nada. Talvez nem todas as cidades sejam iguais em dias de feriado. Não em qualquer bairro você pode ir andando até à Liberdade. E talvez seja mesmo singular em seus trejeitos e em sua história, o mendigo que passa com sua mala de rodinhas, sua vida sobre rodinhas. Ele nos fala: feliz casamento! Não estamos vestidos à caráter para festa alguma. É algo na combinação de dois capixabas andando nas ruas paulistanas com suas expressões de festa que o faz desejar vida longa a essa festa. A cidade parece dormir. E a cidade é exatamente igual a todas em sua função de aglomerar pessoas, de organizar algo, que muitas vezes recai no fracasso desse intento. Sem termos o trabalho, o escritório, e e-mails importantes para ler, ficamos perdidos aqui, mesmo com os trinta e sete teatros tão próximos. Mesmo que o mais novo filme do Wong Kar Wai esteja em cartaz perto de casa, assim como o vencedor do prêmio do júri popular de Cannes em 2007: Irina Palm. Mesmo que as ruas signifiquem uma profusão desordenada de esquinas desconhecidas. Há algo de familiar nesta cidade. Nesta segunda-feira de feriado nublado. Nestes cães que passeiam com seus donos, levemente mais gordos que os de Vitória. Os cães, não os donos. Mesmo que a vista agora seja uma alucinação de concreto. Que seja a Baía da Guanabara ou Montmartre. Ou uma casinha no interior de Minas. O que há de tão igual assim em todos estes lugares onde estive ou não? Nada além do que acontece de igual em todas as paisagens onde me inscrevo: eu. E ser tão definitivamente “eu” é saber que a casa se resume a pouca coisa, e se as levo comigo, estou em minha habitação mais familiar. Nesse “poucas coisas” claro que há pessoas. Estamos em casa sempre ao lado de algumas pessoas. As verdades mais simples são as que mais demoramos a aprender. Então narro o que vejo para mim mesma. Para habituar-me antes da volta iminente. Há pessoas vestidas de modo igual pelas ruas, há um cinza insistente no céu, houve um acidente com um motoboy, há inúmeros teatros, e um deles é o Oficina. Há a padaria da esquina onde não encontramos leite. E existe sua saudade de Vitória, por estar aqui há mais tempo. E existe minha ânsia de viagens, e há até uma palavra em alemão que traduz essa vontade irresistível de viajar: wanderlust. Que por sinal é uma música daquela sua cantora favorita. Que por sinal me faz pensar que todos os lugares são iguais, porque quem estará vendo-os e sentindo-os são estes meus olhos entediados que insistem em ver letrinhas no mesmo português e em tudo. Mesmo assim, há wanderlust. E há a convicção triste de que eu serei sempre igual.
posted by MARA CORADELLO 12:20
Pseudocrônica
Mara Coradello
Vamos fazer um movimento? Sim, uma dessas revoluções de improviso. Com um bom jazz de Brubeck. Que limpo de referências com um bom solo de caixa de fósforos. Vamos pernoitar insones? E tecer no escuro pequenas bolhas de luz, trazendo nos dedos as unhas intactas de não roer. Vamos ouvir os ruídos de vitamina C efervescente em crianças pequenas sem carências? Vamos aglutinar os dias onde as alegrias são coalhadas? E unir todas as alegrias, na pequena indiferença às arestas, brechas, recônditos, desvãos. Uma alegria compacta, lisa, rutilante, perolada, de brilho quase leitoso, como um capô de fusquinha. Luzir. Vamos luzir incipientes? Vamos ser jovens, o novo, e cálidos para sempre? Vamos marcar encontro com o acaso? Sabe como funciona? Assovie ao caminhar, sem óculos escuros, num dia em que o sol franza sua testa. Tropece sem querer nos interstícios da calçada.
“Penetra surdamente no reino das palavras, lá estão as coisas que nunca foram ditas”. As novidades de verdade estão nas palavras, que parecem velhas ao contrário: neologismos, muitas vezes, são palavras que fizeram uma plástica infeliz.
O ruminar do tempo não polui os mares das palavras. Elas são banhadas em claras de ovos, em doces portugueses caudalosos, em fremir ansioso de ventura e do toque sincero de asas de borboletas abestalhadas nos cílios das estátuas: substituem os momentos, as palavras, e assim intensamente os causam.
E a palavra é a pipoca no óleo quente da vida. Se trancar palavras na mão elas morrem, como pássaros antes quentes borbulhando o ruído de suas penas na palma da mão. Sufoca pegar palavras, mas ao contrário da metáfora do pássaro, prender palavras sufoca quem as segura.
O melhor invólucro das palavras é o mesmo cristal que se parte ao ruído silábico. Inaudito para matérias mais duras.
Escapista eu? Até gente tem saídas de emergência: buracos no nariz, para sair bolhas de água tônica, olhos por onde escapa a luz interna.
posted by MARA CORADELLO 18:12
Crônica do dia 30 de janeiro.
Na quinta que vem posto uma nova, que escrevo agora.
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Histórias Acerca de Botões*
Mara Coradello
Ao ler isto adicione a informação da chuva.
E não o chame de confessional, o chame de autópsia.
Uma história universal do amor ao pai, ao verbo e à memória.
Recorte as palavras que mais gosta e coma.
Recomendo que chores.
Não pelo texto. Pela janela ao largo das folhas.
Uma menina mora num quarto com muitos botões. Eles estão num enorme pote de maionese comprada no macro. Numa promoção.
A avó guarda rancores, a lembrança dos passos do vovô Dorico às 5 da manhã e botões. São sobras das roupas dos oito filhos.
Botões solitários que a menina acha iguais às pessoas sem centro no mundo. Os botões parecem querer olhar através de seus furos para linhas.
Em seus furos para eixos de uma ocupação.
Um enorme botão dourado de farda que a menina amedontra-se com o brilho, estamos em 78 e há uma série de botões iguais e pequenos que recebem ordens desse botão de farda.
Um botão que tem arabescos que escondem uma pedra azul: o príncipe.
Uma pérola com tons de um rosa que nunca houve, essa é a princesa.
A menina cria histórias com estes botões. Passa horas no quarto.
Assim que chega à casa da avó corre para o quarto e demora-se mais e mais ali.
Parece morar com as histórias.
Dizem que a menina se esconde do que há lá fora, nas ruas de pedras irregulares no bairro do subúrbio.
Mas a menina sabe que para ela esse sempre será o mundo que ela verá. Um mundo inteiro nas córneas das palavras.
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Estou no Rio de Janeiro e me mudei 5 vezes em 3 anos.
Minhas coisas diminuem em cada mudança. Vendo o colchão, vendo meu fogão.
Vendo minhas palavras a barganhas que chegam em cheques novos e cheirosos de rosa. Tudo cabe em caixas de pão que soltam farelos que alimentam formigas felizes por estar entre livros e trigo.
Elas sabem que isso basta.
Eu não. Não tenho conta no banco, não tenho cerca de dentes, cartão de plano de saúde e helicópteros são alvejados por meninos comandos em ação que vendem drogas que serão usadas por pessoas que colocam trancas em suas casas para cheirar. Mal.
Mas num dia desses no metrô vi um guarda trazendo um casal pela mão.
Vi que os dois importavam apenas para os dois.
Me senti egoistamente feliz podendo olhar durante todo o trajeto sem vistas, Glória, Catete, Largo do Machado, Botafogo, Siqueira Campos, Arcoverde, olhar para eles sem ser vista.
Sem que eles jamais soubessem o quanto eram belos.
Vi a mão deles entre suas e um dialeto novo entre seus narizes e ela parecia com os olhos parados para o alto e brancos numa espécie de platô onde é possível chegar quando se ama.
Eles eram cegos.
* Esses são alguns episódios publicados originalmente e integralmente em 2005, na Editora Agir, na Antologia Paralelos: 17 Contos da Nova Literatura
posted by MARA CORADELLO 09:17
O efeito sanfona no amor
Mara Coradello
Vejo Vitória através dos vidros do grande ônibus amarelo, cujas janelas têm nesse momento a vista digna de um fantástico hotel cinco estrelas. Vejo Vitória e Vila Velha e assim descubro meu Espírito Santo lindo, e me apaixono por minha cidade novamente. Pela paz que encontrei aqui, pela praia apelidada de Havaízinho que comoventemente se abre pequena para um mar tão vasto quanto vertigem e voragem.
Por vezes odeio Vitória sim, e detesto a configuração pequena e puramente política de alguns que ordenam que qualquer divulgação de Vitória não inclua a Terceira Ponte, e de que qualquer descritivo de Vila Velha tem de frear bruscamente o texto quando deveria chegar aos atributos de Vitória, aqui, tão perto. As cidades parecem em continentes distantes em todo material de divulgação turística das duas, só se unem quando falamos do Estado todo do Espírito Santo.
Mas volto ao assunto daqui: odeio e amo Vitória e tantas coisas, que poderiam ser enquadrados como sentimentos bipolares o que sinto. Mas que mania é essa da psiquiatria reles de exterminar a poesia? E aprisionar arroubos em tarjas? Porque sei que é tão vital amar e odiar ao mesmo tempo, assim como te amo e te odeio, e tantas vezes idiossincraticamente odeio e amo as mesmas características, o mesmo perfume. Te acho bonito fumando e odeio teu excesso dos mesmos que tiram minutinhos seus de mim. Imagina quantos beijos a menos em cada cigarro? Quantos passeios a menos com Catita em cada tubinho maldito de papel, pólvora, nicotina, alcatrão e tabaco. Amo sua postura impecável, da mesma forma que por vezes detesto seu ar soberbo. É assim o amor, ou como bem definiu a amiga Cris Hatab, o efeito sanfona no amor. A gente ama e detesta tantas coisinhas, revira atitudes achando defeitos, enumera qualidades de olhos fechados à pequena bagunça que virou minha mesinha de granito, ou ainda ao sumiço das meias de usar com tênis.
São tantas em mim e tantos em você, dois deles se encontram em dias errados e pronto, não tem jeito, brigam com a mesmíssima paixão com que se amam. São tantas disposições diferentes de humor e de compreensão das diferenças e de alteridades. Porém desconfio que o pior de conviver seja justamente o que temos de igual. O espelho e seus reflexos que ofuscam e confundem, num labirinto estreito e asfixiante. Mesmo assim ando com pena daquela que fui, como disse Jana:“tão sozinha que tecia redemoinhos ao redor de si mesma”, aquela que fui antes de você.
O que sei é que amo tantos de você, e mesmo aqueles com os quais implico, que o certo seria falar: eu amo tantos você.
posted by MARA CORADELLO 10:03
Pela primeira vez publico a crônica praticamente em tempo real da
publicação no Jornal A Gazeta, por conter links para os blogs citados.
Pequena retrospectiva literária de 2007
Mara Coradello
Canais de televisão listaram os fatos importantes de 2007, críticos de música das canções e tantos outros de suas memórias particulares. Todo final de ano, pesa esta medida inventada pelos fenícios, egípcios ou babilônios: o calendário.
De qualquer forma vou fazer minha atrasada retrospectiva que tem cara de perspectiva. Vou falar dos escritores capixabas, sequer publicados em papel, que li neste ano, no meio tão mal falado dos blogs. Eu particularmente acredito, como dito naquela palestra pelo poeta Alexei Bueno “a internet é igual ao Exu na macumba: não faz nem para bem nem para mal; você utiliza como quiser”.
O primeiro citado, Elton Pinheiro, foi meu colega de indicação no Prêmio Taru, uma premiação simpática e impecável. Pois bem, Elton escreve com uma dicção bela e original no blog Polifonia (www.eltonpinheiro.blogspot.com). Vale muito a visita. Gosto também da delicadeza da Julia Emerick que chamou o que escreve de “sussurros da alma”. Peço que ela continue no seu www.brilhando.blogspot.com. Para contrastar, que tal a acidez engraçada de Rodrigo Oliveira na sua Casa de Loucos (www.berghof.blogger.com.br)?
Um que conheço desde o ano passado é Saulo Ribeiro, com seu personagem Duda Bandit, um beatinik lírico, que bebeu, além de cerveja, dos clássicos da boa literatura. Leia em www.deitandocabelo.blogspot.com.
E que tal conhecer as reminiscências de André Oliveira, cronista que tem poucos escritos publicados, mas que já desponta com exemplar cuidado e criatividade: www.arasura.blogspot.com ?
Até quem abandonou o blog, como Thiago Raft, ora com palavras líricas, ora satíricas no www.feefaca.blogspot.com merece ser lembrado, porque sempre existem os arquivos.
Não poderia deixar de fora blogs que descobri em 2006, mas mantiveram a forma em 2007, como o do Carlos Calenti, que mudou para o Rio de Janeiro, e ainda hoje continua com seu texto fluido e de sinceridade tocante. Ele “fala” justamente da mudança em textos mais recentes: www.plocker.blogger.com.br .
Por falar em sinceridade, é a meu ver, uma marca dos novíssimos escritores capixabas destes blogs, a sinceridade sem cair no vazio umbiguista do confessional, a exemplo cito Kênia Freitas: www.provento.blogger.com.br .
Fecho com a leveza da muito mais que publicitária Elisa Ribs, do www.prolixaporamor.blogspot.com e com o agridoce da moça misteriosa, Cecília ou não, do www.dansesurlamerde.blogspot.com .
Para tornar mais fácil para o internauta publicarei todos os links no meu. Sim também tenho um blog, o www.cadernobranco.blogger.com.br . E feliz 2008 com muitas leituras, virtuais ou no papel.
posted by MARA CORADELLO 00:16
A última crônica:
A pessoa spam
Mara Coradello
Nestes dias tenho pensado, tergiversado e elucubrado muito sobre a pessoa spam. Spams você certamente e infelizmente deve saber o que são: aquelas mensagens não solicitadas que chegam até você, por meio de sua caixa de e-mails, e sorrateiramente roubam minutos preciosos do seu dia, ou te deixam meio culpado por não lê-las, afinal são enviadas muitas vezes por amigos: correntes, mensagens de power point sobre câncer de mama, textos chorosos sobre amizade, escritos de um senhor que se intitula “filósofo da cidade de São Paulo” e coisas assim. A Pessoa Spam não é diferente. Ela entra no seu mundo e fala sem ser convidada, sobre um assunto que não te interessa. Acha que pode passar ensinamentos sobre qualquer assunto que ela domine. Ignora quando você gosta de determinado autor e gostaria de falar sobre este. A pessoa spam é aquele companheiro de trabalho, até bem intencionado, mas que tem um talento desperdiçado para lecionar e teima em usá-lo a qualquer momento. A maioria das suas pérolas são made in China, sem querer ofender a China, mas são pérolas falsas mesmo, lidas naquela revista importante de circulação nacional, catadas nos afobados provedores de Internet. A qualquer momento a voz dele pode irromper na sala e despejar profundo saber, para interromper pesquisas, a criação de um título que tinha tudo para ficar ao menos agradável e coisas assim.
A pessoa spam é aquela moça que se veste no último grito da moda e que pára a sua frente na festa da corte e fala que na última entrevista de emprego, a sua ex-futura-chefe irrompeu na sala onde a pessoinha spam trabalha e perguntou se alguém te conhecia, “porque você tem cara de doida”. A pessoa spam, claro, jamais poderá provar se disseram isso mesmo de você, tampouco ela define o que seria cara de doida na visão da chefe em questão, mas mesmo assim ela conta a história com um sorrisinho falsamente ingênuo. O fato é que a pessoa spam é aquela que senta nas mesas plugadas do restaurante e decide falar da comida. Reclamar da falta de lugares. Ou ela é aquele carente freqüentador de locadora que adora conversar sobre os filmes, ou ainda é aquele parente que insiste em saber por que você não casou, se você é solteiro, e por que você nunca aparece com uma moça, se você é gay.
O mundo está cheio de pessoas spam e muitas vezes me vi transformada numa delas, por impulso, por mero esquecimento das normas de educação ou pela falta do que fazer. Gostaria de pedir desculpas se fiz algo assim com você que está me lendo e aproveito para tentar entender, qual a melhor forma de deletarmos um comentário spam dito não por e-mail, mas cara a cara?
posted by MARA CORADELLO 15:40
Assumo que sucumbi aos fotologs...e aproveito e deixo o link aqui:
http://www.fotolog.com/maracoradello
Abraços e continuo neste blog, sem obrigação de nada, como gosto.
Louca de felicidade pelo momento de alívio que quase vivo. Falta pouco para o passado virar um reservatório de cinzas, a ser
lembrado como polaroids, desbotadas. As lições, claro, permanecem, mas não endurecem.
posted by MARA CORADELLO 17:38
Última crônica:
A imobiliária da falta de sutilezas
Mara Coradello
Eneida dizia-se uma mulher sem asteriscos. Com isso ela queria dizer que não fazia segredo do que pensava. Não havia nada escrito em letrinhas miúdas aos pés dos seus pensamentos. Eneida diz agora que não entende por que sua praia favorita está em construção, a sua querida praia onde o vento desfolha os jornais, a praia que poderia alcançar simplesmente caminhando, quase sempre de saia branca. Essa praia agora é um pátio de obras, num dia tão perto do verão oficial, de um tempo que já é verão, até para os incautos que adoram datas e regras.
O que Eneida vê? A praia repleta de barro, esturricada e seus coqueiros marcados com x significam o quê? Que morrerão? Aos homens da obra Eneida queria falar que aquelas árvores estão aqui antes deles ocuparem seus cargos de pouca vontade política. E Eneida vai à praia e vê seus coqueiros favoritos soterrados num desterro de dar dó. Eneida não chora, ela espera paciente e acha que talvez por isso o bairro tem acordado mais calado ainda nas manhãs de domingo. Este mesmo foi um domingo de feriado e o bairro estava em Manguinhos, Praia da Costa, Costa Bela, e tantos outros lugares não seus. O bairro exilado de Jardim da Penha, a tristeza nos nadadores de Jardim Camburi. Os desvios dos andarilhos do calçadão. Tão bom era ver todos no mesmo patamar nas manhãs, com tênis importados ou de chinelos com unhas sujas... O homem que sempre fala bom dia. A loira que vive correndo com seus cabelos cacheados.
Antes da praia Eneida caminha no bairro universitário e vê os canteiros do meio das ruas, antes tão verdes, cobertos de um cimento arrogantemente pintado de amarelo e vermelho. Nada contra o amarelo e muito menos contra o vermelho, mas o que os senhores das obras têm contra o verde cálido que entremeava este cinza obrigatório das ruas?
Eneida suspeita de obras no período imediatamente anterior às eleições e ainda mais de alguém que promete uma ponte sanfrancisqueana em pleno Andorinhas. Logo ao lado da Universidade cada dia mais sucateada, com, só para citar um exemplo, uma piscina imensa a luzir o lodo mais fedorento e a alardear um total abandono.
São verbas de origens diferentes, alguém disse. Eneida então respondeu que a origem é a mesma: a imobiliária da falta de sutilezas, a mesma que remexe na Praça do Papa cimentando mais uma área que poderia ter mais de verde. Ou será que ainda pretendem árvores ali?
Eneida nem quer falar da biblioteca portentosa que promete desencadear novos leitores e novas idas ao Centro. Ela tem a delicadeza de lembrar da grama que entremearia as ruas, e de coqueiros quase cobertos da terra do descuido. E Eneida pede mais elegância com Camburi já coberta pela chaga de ser imprópria para o que obviamente se destinam todas as praias do mundo: um simples banho de mar.
posted by MARA CORADELLO 21:25
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Para quem fala que há tempos não me vê...acima um recuerdo.
E o cenário é o que mais vejo: minha sala, meu pecê, direto na minha webcam.
posted by MARA CORADELLO 23:29
E para quem ainda não sabe:
darei um oficina de crônicas, sábado.
Maiores informações e inscrições no:
maracoradello@gmail.com e no 3225 5988 (depois das nove da manhã)
...
Para cada leitor há no mundo uma soma de sentenças, partículas de textos, fragmentos de poesias, frases a esmo_ que salvarão a vida deste leitor. Nada que sequer lembre livros de auto-ajuda. Esses estão classificados pela Ordem como derivados de apenas um livro genial, que não foi escrito pelo autor em questão e por isso alastra-se pelo mundo em forma de ordens narcotizantes.
Prossigo: caso você não escreva aquelas frases, idéias e descrições da pele de sua musa e volte a dormir, esses fragmentos voarão para um enorme panteão localizado bem acima dos Açores, na Biblioteca dos Livros que Não Existem. Algumas vezes a visitamos: nós escritores sem inspiração.
Acontece muito que ao voltarmos da Biblioteca, mais uma vez não escrevemos, nem sempre há blocos de papel por perto, ligar o computador acordaria o amado que dorme... Então as frases retornam para as estantes que não-são, num eterno ir e vir.
Bem... Para cada frase não escrita, mesmo que inspirada em cotidianas idas ao dentista, caminhadas pela margem do Porto de Vitória, uma leitura dileta, uma fatia de bolo de queijo...para cada frase há um leitor desesperado, uma espécie de órfão dessa sentença. Muitos textos servem à várias pessoas. Alguns têm o propósito de fazer o mal. Não há juízo de valor na literatura, como você já deve estar com lesão de esforço repetitivo de saber.
Algumas frases, ou mesmo livros inteiros, servem somente a um leitor. Não há nenhum ganho de bônus por maior quantidade de leitores atingidos por texto. A Ordem desconhece todos os algarismos, exceto os que numeram páginas ou definem idade de personagem e datas.
Há apenas uma norma: sendo você assomado diversas vezes por dia pela construção interna de frases, sem sequer construir um hai kai, ou seja, se você sucumbir às facilidades de uma vida sem escrever ... Meu amigo, você há de se tornar um ser sem elo com a Biblioteca dos Livros Não Escritos. O que não se sabe se é bom ou ruim, e de fato isso não importa. É bom que escreva, apenas porque o leitor órfão de suas frases, em primeira instância, é você mesmo.
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posted by MARA CORADELLO 03:23
Meu coração era um terreno baldio
A única companhia que tenho, além do terreno baldio costumeiro e já notado_não conta_
é um novo hóspede neste mesmo terreno baldio.
A grande noite torna-se maior ainda e ainda é a mesma noite_portanto não conte_
mas o hóspede do terreno baldio me faz lembrar de mim.
Sorrateiro em algum momento deste dia_que eu deveria chamar de ontem, mas hoje
por não ter dormido.
É que o terreno baldio parece comigo e nele sorrateira surpresa surgiu
em algum momento em que eu dormia
no escuro artificial de meu quarto
com estrelas lá em cima
também de artificial fluorescência
estrelas
O hóspede de que falo é a metade serrada de um sofá.
quem o serrou?
o que ele era antes?
quem conseguiu jogá-lo aí, neste terreno que vejo ao esticar meu pescoço
simples e incompreensível como um pescoço
toda a história dos móveis jogados em terrenos.
cadeiras, sofás e camas. Aquelas banheiras antigas que vi na pequena cidade
todo este memorial de restos de casas e de famílias
as pessoas que sentaram neste sofá
alguma vez ele sentiu que faziam sexo?
Nesta noite ele incomodou os vizinhos?
Ou justamente por ser sofá arfou macio?
A verdade que não quero falar é que não desligo
a percepção do sofá
é um convite à minha solidão?
é um transtorno à minha nova e inaugurada solidão?
é um anagrama da colisão de todos nós, uns nos outros
sem acharmos nada
A vida é uma brincadeira de cabra-cega?
Onde estão a luminosidade clara sobre o mar
As palmeiras de minha terra
O sabiá.
O que tenho é um terreno baldio de costas, porque nele há imensas placas de frente para a vida, para a rua.
E nele está a me olhar, os restos podres, usados, abandonados e por demais adjetivados
de um sofá.
Puído de adjetivos e noites passadas assistindo TV e gerúndios.
O pernoite do sofá.
posted by MARA CORADELLO 03:50
Do porquê de não publicar nem um livro desde 2003
Tentar reescrever um romance começado há tantos anos, para ser exata quatro, é ler por trás da história de ficção, a minha história de então.
Simplesmente o romance é, até que eu mude, em primeira pessoa masculina, fala de um artista em coma, de quadros que são pintados depois do autor morto e supostamente pelo mesmo autor.
O que acontece é o que vou confessar agora: leio por trás da história fictícia a história que vivi.
Uma histórinha de amor.
Preciso vencer essa resistência e se a narro aqui neste espaço público é para que as palavras sejam impressas no ferro quente do compromisso, na matéria em aço que é a confirmação entre meus pares: vocês.
posted by MARA CORADELLO 16:36
Lista de resoluções do ano novo, achada agora:
Dieta de perda de 4 a 6 quilos.
Morar sozinha e em dia com aluguel e outras contas
Apaixonar-me e ser correspondida.
Praticar mergulho.
Fazer inglês.
Fazer aulas de direção.
Fazer canto.
Selecionar amigas.
Não falar da minha vida pra qualquer um.
Continuar análise.
posted by MARA CORADELLO 01:26