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Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

 
eu falo das cores dissociadas das verdades técnicas da policromia. falo das cores que vejo em halo ao redor dos teus cabelos. Calêndula, eu construí minha vida para tingir esses nãos de sim. essa doença é superável, mas deixo-me ficar nela como um cerne de descanso e conforto rico em motivos.

_Nesse almoço comeremos pêras embebidas em licores antigos.

Ela ordena gastronomicamente o que eu devo ser, me organiza nos armários, nos punhos das camisas, cortou meu tabaco, somente gramas dele quando eu imploro, me dá na boca em sopros.

Pernoita comigo em delírio, e minha febre dura meses para mim, eu perdi a chance de contar por dias quando desmaiei na primeira noite, depois eu não lembro mais se era a segunda, ou terceira, por quanto tempo eu tinha dormido, as cortinas pesadas aprisionam o sol lá fora, meu sangue doente, dias malsãos, noites embebidas em meu suor.

_Vamos tomar banho de água fresca, mais uma vez. Sentarei você numa cadeira.

A cadeira de plástico branco de rodinhas, ela me escorrega pela casa, Calêndula me segura, ela cresceu desde que nos casamos, aumentou os ombros de me carregar, suporta meus cheiros putrefeitos, meu sangue esquece-se da saúde a medida que eu me lembro do encontro com meus delírios, estou mergulhado em meus poros. O meu sangue esquecido de mim. Contaminado sangue com bolor.


Ela me esfrega com a bucha, as gotas de água caem doídas em meu corpo, esse corpo que parece mais meu agora na doença do que jamais foi na plenitude, nessa enfermidade meus órgãos me seguem, eu a eles obedeço, somos mais unidos do que jamais. ele se faz ouvir, enferrujado, cheio de poréns, de regras, de aparatos, meu corpo me exige na peste o que neguei a ele no bem-estar. me exige amiúde preocupação.

pelo que padeço sou lacaio de meu corpo.

Calêndula parece querer me tirar a carne, me esfrega com a bucha vegetal cujos fios eu amava e agora arame farpado. eu desço ao prumo de um bebê: nenhum. sou mole e exijo shampoo.


Saio do banho exalando o cheiro fétido de sabonete, óleos para pele. Tomo nujol para as cápsulas não se agarrarem em meus intestinos.
Nunca mais havia usado roupão. Tenho um agora, ela me veste de azul celeste.

Ela dorme ao meu lado de olhos abertos, para que eu me cumpra como seu fardo. Espreita-me em seu colo.
A doença não me oculta o vigor para ela. Meu membro toma vontades próprias e ergue-se no banho. Ela tem sedes e bebe nas águas do chuveiro, me banha de camisola. Grega.





posted by MARA CORADELLO 10:20 PM


Domingo, Janeiro 29, 2006

 
Esta cidade tão pequena nos coloca em microscópios. Isso deve ser bom para minha ~literatura cisco no olho~.
posted by MARA CORADELLO 2:50 AM


Sábado, Janeiro 28, 2006

 
uma minúscula no inicio e nenhum ponto final.no meio de [vazios].
Nas pontas dos dedos brancos, as unhas vermelhas como pequenos coágulos de sangue.
ontem eu jurei que jamais faria algo romântico novamente.não descreveria as unhas dela entrando nos fios largos do cabelo dele.
e do couro cabeludo friccionado com umidez da água e força de seus dedos de unhas curtas [dela|.
e como era feito de mate o sabonete, de chá, de erva doce e lima.
de como o dia entra alto nos azulejos do banheiro.escreverei sobre a matemática das relações e seus ângulos de isósceles.
mas os cabelos deles continuam entrando em meus dedos na água que desce do chuveiro novo do qual apenas tirei o objeto e deixei a calha.
a água desce fria e ondula em nossas costas.eu uso um banco para esfregar, onde senta e eu atinjo escápulas, e ele agora é meu doente, meu paciente, meu refém.

posted by MARA CORADELLO 1:23 AM


Terça-feira, Janeiro 17, 2006

 
aonde foi parar o meu repleto?
afogado na praia lhe fincaram a boca e tiraram-lhe todo ar.
segue vazio numa parte de mim bem longe do peito

...........................

marcaram todos aqueles homens de 55 anos encontros no bar de sempre
cada um foi para um lugar diverso, o do último encontro entre dois deles
intersecções
a fugacidade vem com etílico
por isso bebemos

............................

como se você pudesse ler antes das entrelinhas
como se a carne tenra de seu peito adivinha-se meus dentes
como-te

...........................

as pessoas muito doces de ph básico eu chamo de marias.
moles.
posted by MARA CORADELLO 1:33 AM


Domingo, Janeiro 15, 2006

 
repingo de hemácias para eu terminar mais tarde em conto, ou presilhas

vou sonhar com um mundo em que o sangue das pessoas seja bonito como um nariz
o sangue contra o asséptico
algo como uma linha reta
numa parte de cima da pele
que cobre o fêmur direito
algo como contaminar-se
de vida
posted by MARA CORADELLO 6:07 AM

 
O amor é um abscesso

mulheres são como dentes
frágil e o que morde
cáries escondidas
formigas nos dentes: homens
adivinhação do que brota
gengivas
sensitivas
ácidas: mulheres
homens são torturas, acupuntura nos dentes
pequenas misérias travestidas em gelo
no alumínio por sobre, em cima
brotação inglória de falsos chãos
morder em falso
trincar vazios no vão de móleculas
vácuos de obturações
ou nada disso
inversão de molares
caninos são os homens
que agudam em ão
em falsos pontiagudos
verdades molares

mulheres como resinas
falsas em engessar de cálcio
pedaços de partículas de membros
eterno amolecer de partes
o desejo primeiro em amaciar de formas suaves e moles:
crianças
sem dentes e em gengivas.
onde nascerão e cairão, antes em dúvidas
perdurar com tempo de durar
dentata

um pedido entre pedaços duros de vida
a tropeçar nos dentes
molde de ouro
adivinhação sem segredo
deixe-me ficar. eu fluor.

posted by MARA CORADELLO 5:30 AM


Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

 
meus olhos realizam a fotossíntese da tua presença. a fato assim de vasculhar teu infinito inaugura um frevo dentro de mim, mistura tanta loucura, palavras feitas de mel baião de dois e ternura. no fundo eu quero mesmo é fazer cócegas em teu coração, e depois de coçar, te coçar, te acossar a sós até você cair em exaustão. há muitos relâmpagos nas minhas tempestades. maiúsculas formas de encontros, eletromágica energia que há em tudo: nos homens, nos leopardos e nas borboletas. há muitas formas de te projetar, de te esculpir de emoções, pérola preciosa das canções. se eu quisesse eu ainda poderia convidar estrelas, pássaros e paisagens para dentro do poema, mas eu prefiro dar às palavras a dimensão da luz, do vôo da natureza dentro de você.
Frevo - Salgado Maranhão.


(alguém por favor me arruma o livro Punhos da Serpente, de Salgado Maranhão, Editora Achiamè, 1989, onde existe esse texto e se Deus quiser (e não pronuncio seu santo nome em vão) outros assim desse jeitinho)
posted by MARA CORADELLO 1:53 AM


Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

 
Perdi o post querido. Que pena...
posted by MARA CORADELLO 1:17 AM


Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

 
De volta aos choramingos do correio sentimental de Mirna Corelli.

Vou escrever assim feito um diário decomposto. Desses do tipo que você abre o peixe e as espinhas saem inteiras.Pena que as vísceras aparecem de chofre.
Uma das coisas melhores e menores de estar longe de você: estar longe. Não compactuar com suas verdades pequenas e escondidas entre trejeitos.
Eu queria tanto amar o que passou, apenas porque amar o que passou seria amar o que eu fui. Ao contrário eu odeio e depois esqueço. Traíras são peixes onde se retiram espinhas com pinças.
Penso em distâncias e pormenores das separações dos outros, da moça que te chamou de querido e nem sequer era apenas eu a tal moça.
Entre as cortinas laranja uma cidade compacta como as minhas linhas da mão. A sensação de estar sempre deitada nessa cama de dossel que é Vitória, longe dos jogos e dos eixos. Consigo enfim voltar ao meu romance (o livro) e compro uma bicicleta.E pedalo.
Imagino que toda separação necessite desse fim da admiração, por isso os casais inventam formas de se odiar, falam-se mal mutuamente mesmo que seja (ah, os discursos da classe média) no analista. Dois no caso, o meu e o seu.

E isso parece não mais importar quando eu vejo alguma fagulha ainda acesa sobre a tampa já fechada do fogão à lenha.
Frutas na geladeira, roupas novas em rendas azuis, nova cor de cabelo, novo peso na balança, objetos pairando inertes nas sombras que o sol escalda.

É absolutamente verão por aqui e penso que eu deveria ter um romance de verão. Parar com o Naftalinas e escrever um lindo livro de verão. Quem foi que pensou em casos com surfistas? Cerveja desce bem aqui mais perto da Bahia que de São Paulo.
As horas se espreguiçam na castanheira do quintal.
E escrever para vocês me lembra meu passeio no MASP: olhar os Renoir e me sentir vigiada em cada passo, quando imagino um estilete em meu bolso.

Para amar tanto é necessário odiar mais ainda em cada final. E tornar-se amigo só é permitido aos casais que se amaram mais ainda que nós ou muito menos.Fomos tão volatéis.
Durma bem pensando que perco a noção do rídiculo e que teço essa história para outro, não para você. Tenho tantos amores que penso em pedir um novo no réveillon, um ano com cheiro de livro novo para todos nós e que os plurais não nos causem estranheza, mesmo quando sejam três.

Que as antuérpias e bilbaos sejam mais que nomes estranhos num mapa mundi na memória rarefeita do que não vivemos.
Que eu fume menos, para seu prazer. Que consiga ser menos chatinha e uma ex-melhor, uma atual mais saciada, uma mullher de voz calma e com alma leve sem ostentar isso rudemente, que o mundo estranha esse inefável.

Construir coisas perenes com a inexatidão de quem pensa que o castelo vai cair, de cartas. E lembrar que amar mesmo, é apenas uma réstia desse sol imenso que é a vida. Eu estava pedalando agora e pensando nisso, descubro que escrevo mais depois de pedalar do que depois de beber. Vou nadar então e fazer hidroginástica e ainda comer mais folhas, volta e meia um porre de uísque com gelo de água de coco, sou herege e daí?

E ainda tenho músicas novas para ouvir e provavelmente passarei o ano novo em Portugal. Tenho ainda um ou dois sonhos desses sonhos de verdade, com os olhos fechados e travesseiros que espero realizar. Você tem algum? Não? Então anda dormindo pouco ou comendo só proteínas à noite...Cuidado, isso emagrece os sonhos.


posted by MARA CORADELLO 2:45 AM


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