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Segunda-feira, Maio 29, 2006

 
Fragmentos e considerações ao redor do que não está escrito. Eu desconheço o roteiro do banal e escrevo clarices e penso que faz sentido roubar lispectors. Ela me pune entregando inteira essas coisas até mim, as coisas desta forma se consignam, são devolvidas a sua falta de sentido e perco meu tom achando um pedaço de você nas ruas. Ele vem embaixo do meu travesseiro para casa e urge fazê-lo dormir. Ele, que se alimenta de si mesmo e anda pelas ruas brincando de rodear a cabeça das pessoas, está um tempo frio ele está tépido, está um tempo quente e ele vem em chuveiros e está mormaço quando ele decide. Ele me inspira uma meta de longo alcance: uma horizontal ou vertical, enlace.

Ele. O desejo.

posted by MARA CORADELLO 6:30 PM


Domingo, Maio 21, 2006

 
(última crônica que eu gostei)

De violinos, cães e pessoa bravias

Mara Coradello

Vim de São Mateus, norte desse estado, com cerca de dezessete anos. A intenção era prestar vestibular na UFES, passar, me formar e voltar para lá.
A amiga veio por acaso encontrar comigo, não consigo divisar o dia exato em que a conheci. Sei que aprendi com ela a quase não ter medo. Aliás, isso quase me custou o pescoço algumas vezes, porém uma nobre forma de viver esta: coragem. Mais tarde descobri que medo é também fluido de impulsionar a vida, não somente nas ruas da noite, mas no claro do dia. Os animais mais inteligentes têm medo. Algumas raças de cães não têm quase nenhum medo e são proporcionalmente as mais bobas. Mas há de se ter um medo manso. Desses que te impedem de levantar a voz para a chefa que você pediu a Deus e apenas não está num bom momento, desses que te fazem levar o casaco caso chova. Mas medo paralisante nem pensar. Bú!

Essa minha amiga costumava ser confiante e tinha um violino. Emprestou a mim os primeiros livros dos beats e algumas inflexões na fala que eu nem uso mais.

Violinista, adepta de frases curtas e tantas vezes cortantes, simpática ao extremo, apesar de extremamente mal humorada. Uma dessas pessoas que encontram esse equilíbrio no mau humor porque troçam de sua própria rabugice.
Na verdade ela não se enquadra na categoria dessas pessoas, ela é uma pessoa singular.
Clara, rápida e genial. Um pouco mais inteligente que esse mundo. Por isso cansa logo das coisas e volta e meia fica como agora, três meses sem tocar o tal violino.

Ele fica mudo embaixo da cama. Como um cão esperando o dono o levar para passear.
Ela passeia com seu setter e descubro que ela pertence a essa raça de cães. Sabe que ando comparando pessoas à espécie de cães? Leio o perfil do cão e vejo seu focinho nele. Há cães ranhetas, cães mais cordiais, e há os poodles. Apesar de Lola, cachorrinha cinza da minha amiga cantora ser uma não-poodle: calma, educada e calada.

Gosto deles. Acho cachorro divertido e cheio de calor. Um pote peludo de carinho ao alcance das mãos. No Rio eu visitava o Pet Shop ao lado do Copacabana Palace, era minha fonte emprestada de ternura rápida e de graça.

Foi justamente essa minha amiga do violino que me deu meu primeiro cão unicamente meu: Gogh. Um vira-latas que eu tosava como schnauzer e até a veterinária achava que era.

Gogh eu levava para a UFES e o amarrava nos lugares enquanto pegava livros na biblioteca, ele sentava aos meus pés enquanto eu lia. Um cachorro honesto. Quando arrumei um emprego duro em agência e virei workaholic ele foi embora. Fugiu de casa para nunca mais.

As pessoas que a gente cultiva pela vida também fogem da nossa falta de tempo, da nossa rabugice. Mas creio que Gogh estava errado, são os que nos compreendem em nosso mau humor que merecem os melhores afagos quando a crise passa.
Assim como o violino merece que Gigi retorne a ele.
Nós esperamos.


maracoradello@gmail.com

posted by MARA CORADELLO 9:48 AM


Quinta-feira, Maio 04, 2006

 
O exercício do não-quero

Não quero cigarros. Não quero uma noite em aceso com vinho. Não.
O próprio não é som entalado. Palavrão. O exercício do não-desejo é uma arte. Travada por ela naqueles encontros e missões ocasionais. Dois discípulos do herbarismo. Botânicos.
Exercendo em pétalas o que deveria ser feito com cactus. Exercendo em lisas comigo-ninguém-pode o que deveria ser tulipa.

Ela cerra os dentes. Desvia o olhar no nomento da queda final. Transmite mensagens em aceso, para logo em seguida queimá-las ainda inteiras, amarrotadas nos cinzeiros.
Esse exercício é prazeroso. Não comer o chocolate antevê o prazer de não ter a culpa que fatalmente seria parte da digestão.

Não coma.
posted by MARA CORADELLO 6:43 PM


Quarta-feira, Maio 03, 2006

 
Crônica de hoje_



Lembrança da saudade que some

Mara Coradello

De repente o sangue nas veias desfila morno. Posso ouvi-lo. E sonho com coisas que não deveriam acontecer em primeira pessoa. Fragmentos de filmes vistos e sorridos. Tento reestruturar. Do que você tem medo quando não consegue pregar os olhos nos seus travesseiros à noite? O que te faz adiar esse minuto por tanto, tanto tempo que se descolorem as horas?


Vou tentar ler antes de dormir.

Não tenho paciência para autores da nova geração em inglês e francês. Não tenho curiosidades. Talvez porque queira ouvir minha voz interior e esses poderiam parecer interferências numa rádio mal sintonizado. Quero o apuro do som real. Mim mesma no quarto onde moram minhas obsessões e felicidades.

Comecei a ler Nenhum olhar, do português José Luís Peixoto. Finalmente. Eu o ganhei de uma livreira querida, que é médica. Ou seria médica que é livreira? Livraria Largo das Letras, em Santa Teresa. Tenho saudades de ir lá.
Tenho saudades de partes do Rio de Janeiro, que se unidas fossem, formariam a cidade ideal. Sei que isso é exatamente o significado da palavra saudade: partes sensacionais de coisas que se coladas, resultariam tão diferentes do que passou que seriam outras. Por isso tantas vezes saudades são meras mentiras. Como lembranças do parque da infância, que se visitado agora, pareceria pequeno e descascado. Mesmo assim provavelmente eu me sentaria num dos balanços e mesmo estática moveria lembranças.

Não tenho vontades. Tenho o átimo em que escrevo isso, quando termino a última letra já há um ponto final. E prossigo para a próxima e assim, não sucessivamente, mas intensamente. Tenho certa tendência a exagerar nos impulsos ao escrever, me apaixonei por um autor que faz justamente o contrário: Quim Monzó. No livro O porquê de todas as coisas ele corta. Eu leio, releio e vejo sua secura matemática e quase corto os pulsos de inveja (oops, drama queen).

Vou terminar aqui porque já estou com saudades da minha preservação pessoal e essa foi mesma uma crônica inteira em primeira pessoa, mas inspirada em uma terceira. Que está quase de volta, para me ensinar, inclusive, a entreter melhor você. Até quarta, nesse mesmo local. Com a textura do novo que impregna às vezes as mãos, mas por isso mesmo marca os inícios.

posted by MARA CORADELLO 1:16 PM


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