Risque as palavras em desuso
Sabe por que o amor é uma palavra tão curta ? Porque é a abreviação. Não caberia. O continente do teu olhar, as planícies do teu abraço, teu sorriso cordilheira. E todos as constelações de tuas palavras no escuro dos dias em que não as escuto.
E nessa imensidão no amor as coisas não possuem proporção. O que pequeno se avoluma, o gesto delicado deriva do imenso que nos olha por dentro e nos assombra acima de nós, o coração pulsa inchado, os afogueados glóbulos do sangue se fazem ouvir em veias que são ferrovias por onde passam os dias, descarrilhados. As pequenas e delicadas texturas de sua carne onde deposito toda a minha vida de imensa reclusão no desconhecimento do amor. Essa paixão é a única coisa que, por não a termos, sentimos falta de todos os seus detalhes. Talvez igual a ter algo que não possuimos com o dinheiro, porém o amor é ainda maior que um carro, uma casa, uma jóia que brilharia falsa se no pescoço da pele faltasse amor. O amor é feito de pequenas coisas que grandes são quando a possuimos, múltiplo denominador comum, matemática perversa de um árabe que inventou as regras como um deus cria o mundo, sem nos mostrar a origem. Oculto em perfumes e trejeitos e faltas de jeito o amor coabita com a surpresa e é tão inesperado como a explosão de um sol, a superfície de buracos negros, a relatividade aplicada a Deus e o acaso.
Aleatório o amor deriva da química, da geometria e acaba por causar literatura e novas línguas e novos países e novos e insondáveis mulheres e homens.
Dizem que o amor é precipício. Eu acho que precipita.
Mas o amor também reveste de imensa calda e sabor o que de perto é fátuo, é pouco. Porque o amor queima as pessoas ao longo dos dias e delas restaria apenas um núcleo pequeno e mole, onde algumas vezes achamos o medíocre, o "não era bem isso". Porque o amor edulcora, calcifica, e aromatiza. O corante do mundo é o amor. A invenção das horas foi para contar alguma distância de enamorados. O intenso gasto e uso da palavra amor a tornou irmã menos nobre da amizade em muitas sociedades. Devido a novelas de televisão, livros mal escritos ou escritos no calor das horas. A amizade hoje em dia, tantas vezes, é apenas a roupa de trabalho do amor. O amor cotidiano, que não atrapalha casamentos já forjados, opções de sexo já previamente escolhidas e bebês que estão a caminho.
O que o amor quebra a amizade cola. Dois irmãos de natureza fogo e bombeiro. Duas pequenas coisas em meus bolsos, que por muitas vezes não acho onde as procuro, óculos, chaves de casa, tesouras de aparar unhas.
Sigo assim a ver no amor a espera e a esperança. A vida e vilania, a morte em sossego no berço da criança que surge de seu intento: do amor.
(trecho do livro que tento escrever, como quem tenta amar)
posted by MARA CORADELLO 10:50 AM
E eu escrevi sobre futebol, de certa forma.
Pela hora que estou publicando isso aqui (deve ser final do primeiro tempo de Brasil e Gana) vocês podem imaginar
o quanto eu adoro as cornetas. Ainda bem que além de mim tem:
ANDRÉ KITAGAWA, ARIELA BOAVENTURA, BRUNO ZENI, DANIEL GALERA, DOUGLAS DIEGUES, ÍNDIGO, JOÃO FILHO, MÁRCIO AMÉRICO, PAULO SCOTT, PAULO DE TOLEDO, TADEU SARMENTO.
Veja e leia:
http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/figurinhascarimbadas/
posted by MARA CORADELLO 12:56 PM
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A lógica prática de Holly Golightly
por Truman Capote em Breakfast at Tiffany´s _ os grifos são do autor
O amor deveria ser livre.Sou totalmente a favor. Agora que faço uma boa idéia do que é amar. Porque amo José_ até paro de fumar, se ele pedir. Ele é gentil, sabe me fazer rir quando a coisa está preta, ainda bem que não tem estado preta nos últimos tempos, só às vezes, e mesmo quando não está uma beleza e preciso tomar Seconal ou me arrastar até a Tiffany´s, levo o terno dele para a lavanderia ou me entupo de cogumelos e me sinto melhor, bem mesmo. Tem mais, joguei fora meus horóscopos. Devo ter gastado um dólar para cada maldita estrela do maldito planetário. É maçante, mas é verdade que coisas boas só acontecem se a gente for uma boa pessoa. Boa, não, honesta é melhor. Não honesta no que diz respeito à lei_ eu violaria um túmulo e roubaria os olhos do morto se isso servisse para melhorar o dia_, mas honesta consigo mesma. Tudo, menos ser covarde, embusteiro, destruidor de corações ou prostituta: prefiro ter câncer a ter um coração desonesto. Não é questão de ser carola, é questão de ser prática. O câncer pode acabar com você, mas a outra coisa vai acabar com você.
posted by MARA CORADELLO 9:11 PM
Depois da letra de música, eis que faço mais coisas que estão fora de moda em blogs, como polainas. Recomendo um site e entrego: agora devo tentar mais uma vez ler Ulysses. Também depois disso:
http://www.cronopios.com.br
E confesso, com menos pudores: esse é meu site favorito sobre e de literatura. Não, não fui articuladora dele, não tem nada meu lá. A única citação a meu nome é algo que gostaria que fosse apagado. Alguém pode falar ao Nelson de Oliveira que eu fiz o blog para divulgar o livro, não o contrário. Já que é pesquisador e gosta de rótulos (por puro deleite, como ele mesmo cita) poderia ao menos pesquisar melhor.
Não sei o que é uma escritora de web, mas não gosto do título. Não, não tenho nada a ver com Clarah Averbuck, se ele quiser posso enviar meu romance em construção, mas gostaria que parasse de me avaliar pelo meu primeiro livro, senão vou julgá-lo por apenas um dos seus, ou dois.
Quanto ao Cronópios: gosto, leio menos do que deveria e alguma dessas livrarias grandes e picaretas, com muitos lugares para auto-ajuda, deveria custear a publicação dessa revista, impressa.
Sim, adoro papel e de preferência aquele que não suja os dedos de tinta.
posted by MARA CORADELLO 5:46 PM
Música que Tathi me apresentou no sábado, com o Ro e a Lu Mel... e eu estou ouvindo mentalmente desde então...
Que o Deus venha
(Frejat e Cazuza, sobre texto de Clarice Lispector)
Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo
Com toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida
posted by MARA CORADELLO 10:50 AM
Outra crônica. Nem todas eu posto aqui. E lembre-se: são todas baseadas em fatos de minha biografia inventada.
Quase carta ao recente ex-amigo_ escrita em verdana
Mara Coradello
Algumas pessoas amam Vitória exatamente pelo que ela tem de compacta. E a falta de um café vinte quatro horas aberto e de um teatro que comporte um grande musical, como a Ópera do Malandro, não inviabilizam essa cidade. Penso nisso no domingo à noite, depois de vir da casa de amigos. Onde um dos assuntos ¿o que nos leva a ter solidão numa cidade onde conhecemos cerca de trinta pessoas intimamente em cada evento de arte?¿ Afinal encontramos sempre alguém com quem conversar, onde quer que estejamos.
A idéia dessa crônica surgiu justamente da quase impossibilidade da mesma, porque estou sem notebook, eu escrevia em um desses, um que veio ao mundo em 2000. E ele deve mesmo ser chamado de laptop, porque é compacto. Tem leves oscilações agora, e pensei num determinado amigo que talvez pudesse me emprestar sua máquina, mas ele, segundo suas próprias palavras, rompeu relações comigo. Tentei entender porque se rompem relações, e claro que pensei em Vitória, e não sei se aqui é diferente de outros lugares mais populosos, porém lembrei que a única forma de não sentarmos novamente na mesa, de quem não queremos falar é cortar definitivamente os laços. Esse ex-amigo sempre me alertou, entre risos, que está descartando amigos feitos em 1993. Eu sempre me lembrava, nas inúmeras vezes em que ouvia essa frase, que eu realmente era uma versão 93. Não sou mais, ele conseguiu. Parece que outros dois amigos de 94 também entraram nessa espécie de coma de amizade por mera senilidade, proposta por ele. Portanto essa crônica sai sujeita a oscilações de teclado. De letras que entram sem querer no meio das palavras escolhidas a dedo. Entra uma série de zzzz, entra um q maiúsculo e entra uma ponta de indignação e piedade. Entraria só piedade, mas é tão pretensioso que eu sinta compaixão de outro ser humano, afinal sou tão imperfeita quanto qualquer pessoa, talvez nem tanto quanto Suzane Richthofen ou como gente que buzina no trânsito. Mas sou.
Ao amigo que não quer falar comigo, peço obrigada. E penso que no nosso próximo encontro vou ter apenas que contorcer o pescoço e falar com todos, menos com ele. Ao invés de ouvir uma de suas frases típicas, como: ¿que horror! Meus amigos de 1993 estão envelhecendo¿. Sim, estamos todos envelhecendo. E achamos glorioso ter amizades que já duram mais de dez anos e não entendemos como alguém pode se fiar nesse anagrama temporal crônico e relapso para julgar. Até porque meus amigos de três meses atrás também me trouxeram boas surpresas e eu acredito que é balela de autor de série americana dizer que não fazemos mais amigos após aos trinta.
Fazemos, desfazemos, e criamos novos vínculos com velhos amigos, porque no terreno da amizade ainda somos e sempre seremos crianças. Tem uva-pera-maçã-e salada mista, risadas e tardes inteiras conversando, nesse terreno. Um quintal onde também cabem, às vezes, críticas que, ditas pelo amigo, têm o peso e a leveza de uma daquelas bolinhas de isopor que espero, embalem logo meu próximo computador.
Acontece que essas considerações ínfimas a respeito de amigos, me lembram que ex-namorados também coabitam comigo em diversos lugares. E acho que isso seria igual numa cidade extremamente gigante, em Nova Iorque eu conheço um tradutor de literatura brasileira que nesse momento deve estar tomando um café com um conterrâneo capixaba, meu contemporâneo na universidade. É simples: interesses em comum transformam o mundo num botão de camisa. De madrepérola, refletindo esse brilho leitoso do aconchego que buscamos ao trocar idéias sobre assuntos que conhecemos, com quem também adora o último CD do Koop, filmes do Woody Allen, contos obscuros do Caio Fernando Abreu...
Não adianta fugir, brigar, romper, não ligar no dia seguinte. Qualquer dia nos esbarramos novamente, então o que se espera é que tenha sobrado, ao final de tudo, motivo para um sorriso, para um ¿oi, como vai?¿ Mesmo que nem queiramos saber de verdade. É esse mínimo de educação que eu espero. E mesmo que não mais sejamos amigos, não ignoro suas qualidades, seu bom trabalho e seu senso de humor, mesmo que eu tenha me ferido com sua acidez. Vamos lá, eu também não sou uma pessoa de PH básico. Diga oi, se não doer muito. Se doer, deixe para um futuro próximo, não sei se pelas minhas próprias experiências, ou se pela falta de lugares interessantes no mundo, eu tenho quase certeza que um dia vamos nos encontrar. E teremos de explicar à platéia porque não nos falamos, no mínimo chato admitir que não convivemos bem com os erros alheios, no mínimo triste cortar amigos como itens numa lista de compras. É que eu não pretendo cortar o vinho tinto, nem aquele carbonara que te servia com prazer. Sinto muito. Ainda não inventaram um meio de cortar de mim o afeto.
maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 10:55 PM
Uma crônica. Não lembro bem de qual dia. Se quiser uma literatura mais literatura (na minha opinião e quem se importa?), visite o www.escritorassuicidas.com.br
Histórias do amor alheio
Mara Coradello
É batata, como diria o Nélson, não tem assuntos? Fale de amor.
Fale da luta inglória para entender esse sentimento que pode ser chamado de Mito do Amor Romântico, como naquela comunidade do orkut, que eu insisto em fazer parte, alheia ao fato de assustar prováveis futuros qualquer-coisa. Até amigos. Estou mesmo sem assunto. É que nesses dias as histórias estão com frio. Estou sem início meio e fim. Perdi provisoriamente meu livro do Rubem Braga, com mais de quatrocentas crônicas escolhidas para que sua inspiração me acuda em favor do texto daqui. E eu me acostumei tanto com minha própria frase: eu tenho histórias demais e todas com inícios meio fim.
Mas adoro histórias do amor alheio. As coleciono como uma antiga senhora cria gatos em sua casa em meio ao bosque.
Leia algumas:
Terapia cifrada
Eles eram um para o outro. Apenas bons amigos. Integrantes da mesma banda de música eletrônica. Os dois possuíam o mesmo ângulo de olhar para a vida. Ambos freqüentavam divãs. A terapeuta dela falou que ele era e sempre seria o homem certo, que ela fingia não ver. A terapeuta dele falou o mesmo em relação a ela. Brincaram com esses diagnósticos em um telefonema seguido por dias de silêncio constrangido. Logo depois se casaram. As músicas que fazem são ótimas, o mundo inteiro os ama num amor que eles tocam em conjunto. E claro: brigam de quando em vez. Descobriram, anos mais tarde, que as duas terapeutas são amigas de longa data. Adivinham que ambas em segredo devem ter violado o código de ética e decidido o empurrãozinho quem sabe numa cerveja de tarde, no restaurante árabe de Bairro República, ou no alemão.
Graças a Deus que o amor volta e meia ignora a ética.
A mulher e o ladrão
Eram amantes há cerca de dois anos. De um amor desses que doem.
Ele era casado, e tinha uma filha de dois anos. Promessas de separar desestimuladas por ela que dizia sempre: respeito profundamente famílias.
Um dia num longo telefonema de celular ela ouviu um ¿perdeu, perdeu¿ e logo depois o tum-tum-tum do abruptamente desligado. Não teve dúvidas, ligou para a mulher oficial e disse que ouviu o assalto. A mulher só perguntou: quem é você?
A amante: uma amiga dele que não sabe o número da placa do carro, que ouviu todo o infortúnio.
Ele agradeceu a ela, a vida e o final do casamento. Logo depois voltou para a mulher, mas ainda hoje pensa em como teria sido se.
O amor perfeito
Num reino muito distante uma princesa sádica brinca com um plebeu masoquista. Como? Nunca lhe concedendo nenhum prazer e com requintes de ferocidade: ele não vislumbraria jamais em sua vida o rosto da princesa.
Ele: sofria deliciosamente construindo a imagem da cruel nas nuvens do céu e nos objetos a seu redor. Masturbava descrições mentais do rosto da princesa.
Ela: mandava sinais de sua existência - em boatos, lembranças do que jamais houve e truques com perfumes.
Torturas e delícias a ambos, ao mesmo tempo e através de um só instrumento: o desconhecimento.
maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 10:50 PM
De palavra mansa o mundo anda cheio
quero ver o que se esconde por baixo do seu azul angelical
viva as esquinas de você
aposto que elas sabem aonde vão dar
posted by MARA CORADELLO 2:17 AM
Não adianta esse olho átimo para cima de mim
Nem esse beijo esguelha
Anda
quem aqui falou de amor ?
As que você conhece usam rosa
Eu tenho um coração de tachinhas
Ando por aí
Nunca uso açoites
A menos que implorem
Faço rimas com figas
Para quem quer me esquecer eu sou o adeus
Não me importam as esperanças
Perceba: não tenho rédeas nem arreios
cavalo mal dado não se olham os dentes
há um lugar para você se machucar
dentro de mim
posted by MARA CORADELLO 2:13 AM
Eu não tenho espaços mais para me machucar.
Até pensei em citar a canção do Chico, belamente cantada pela capixaba como a gente Nara:
"Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio"
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Mas não tem jeito, eu tenho e tive um coração de duralex, o vidro marrom.
Ele demora a quebrar, cai todo inteiro e barulhento parece que se espatifou, mas qual. Ainda inteiro até que um dia, em uma queda ínfima perto das outras ele parte em mil pedacinhos de tamanho quase igual, mas não vai cortar ninguém que pise em cima.
É isso. Por isso agora eu quero que me falem que o coração da gente cabe no pé, nos pulmões, ou em órgãos com nomes mais censuráveis.
Ou orifícios. Ou seja, o que chamamos de coração pode se nomear: perna.
Mas bom mesmo é imaginar a frase: te dei minha perna e não notaste.
Ok, estou falando baboseiras. Mas fazer o quê? Sinto falta do frio do rio.
posted by MARA CORADELLO 11:27 PM
De repente sua voz vintage chega em recordações do que senti.
posted by MARA CORADELLO 10:38 PM