O caderno branco de Mora Mey

O caderno branco de Mora Mey

archives


Domingo, Outubro 29, 2006

 

Um teto todo meu


Mara Coradello

No ensaio Um teto todo seu, Virginia Woolf, estabelece limites e sugere posturas para a mulher que escreve e como o próprio título já entrega, ela coloca como prioridade que a moça escrevinhadora tenha um lugar só dela, de preferência com uma janela que se abra para uma frondosa árvore.

Estou em busca deste lugar. Voltei para Vitória há cerca de doze meses, morei por cinco anos no Rio de Janeiro, onde fiz amigos e publiquei meu primeiro livro de contos: O colecionador de segundos. Em seguida a este, como por milagre, fui convidada para mais três antologias, uma delas me deu um susto por sua categorização, é organizada por Luiz Ruffato e chama-se 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, da Editora Record. Porém o conto que mais aprecio, ou do qual me envergonho menos, chama-se Histórias acerca de botões, e está no volume 17 contos da nova literatura brasileira, da Editora Agir.

Mas um dia a Ilha me convocou e vim.
E assim que cheguei o convite para escrever neste espaço deu teto para meus textos, teto com janelas, que são os olhos de leitores como você.

Mas escritores ou iniciações de escritores como eu, são pessoas sem horário comercial definido, pude comprovar lendo algumas biografias e ao conversar com alguns exemplares. A maioria anda pela casa de madrugada ao brigar com as palavras que suspensas pela indecisão se avolumam e nos seduzem, uma a uma.
E há outras complicações: Ligia Fagundes Telles falou numa entrevista que trabalha toda arrumada e maquiada, como, aliás, sempre se apresenta a grande dama, sem dúvida uma de minhas favoritas. Na mesma entrevista ela não permite fotos em seu escritório, talvez temendo afugentar as palavras acima da máquina de escrever. Porém eu não sou uma dama de tão alta estirpe, e às vezes escrevo o dia inteiro de pijamas.

E nem aposto que a qualidade de meu texto se apruma quando uso uma indumentária mais apresentável, e para a crônica e para a poesia gosto de estar entregue. O romance escrevo de vestidos largos de ficar em casa e para textos profissionais, de redatora publicitária, uso roupas de escritório.

Além de tudo, tenho este olhar vago, essa alergia a barulhos, nunca ligo a TV e até mesmo a filmes vejo pouquíssimo, prefiro cinema. E sim, a rua me atrai, com as pessoas e suas histórias de não-amor, meu tema maior, e as histórias de foras, despropósitos, mulheres que terminam relações e querem voltar para ex-namorados que estão já com outras mulheres, pessoas que encontram seus cônjuges na cama com desconhecidos, tudo isso seria impossível de viver em


casa, ou lendo, por isso sou da geração que, como a pesquisadora Beatriz Resende falou, usa a cidade como personagem.
Pelo menos histórias íntimas dos moradores anônimos desta cidade.
E amo lugares duvidosos, escuros e com músicas clássicas do abandono.

Por isso sou difícil de morar junto e para tudo tenho justificativa, porque ainda ordeno minhas palavras organizadamente. E como escrever é escolher palavras, morar é decisão por vizinhanças e climas. Estou entre Jardim da Penha, Bairro República, Jabour, Fradinhos, Bairro de Lourdes, Goiabeiras, Maruípe, Praia do Canto e tantos outros.

Sou ainda mais integrante da cidade quando estou a decidir o lugar depositário de minha esperança de viver. E tenho descoberto que essa ilha por vezes chamada de cidade de chicletes, por suas pastilhas que encobrem o novo, é uma ilha em construção.

Barulhos de obras, casas que caem e viram prédios, pessoas que chegam e outras que partem, sem vagas para garagem em tantos prédios que previam estudantes e agora têm famílias que se agrupam.
Uma cidade em franca vida. Se São Paulo é uma dama, o Rio é uma mulher, Vitória seria uma jovem? Com suas novas buscas de estruturas e definições? De qualquer idade e sem sotaque, passa mutante ante meus olhos, que a querem. Essa vida compacta de afagar a paisagem porque tudo é tão perto. Procurar uma casa é mesmo como procurar a si mesmo...




posted by MARA CORADELLO 10:40
Comments:


Quarta-feira, Outubro 18, 2006

 
Sair da fumaça da boate inferno e dos olhos dos outros, estes sim, verdadeiros infernos.
Alguém motorizado que eu só guio bicicletas e tenho orgulho disso.
Então ela exclama: vamos para Domingos Martins?
No meio do barulho da música ruim e da cerveja com gosto do sal das mãos que mergulharam para pegá-la ela o olhou e de súbito houve um beijo igual.
Um beijo igual é quando você beija alguém e a pessoa é igual na língua, ritmo, pasta de dente, saliva.
_Vamos para uma cachoeira?
E Pedro sorriu piscando os longos cílios e mudou de nome para Juliano.
E foram.

(continua)
posted by MARA CORADELLO 20:00
Comments:


Terça-feira, Outubro 17, 2006

 
A História Vulgar de Todos Nós


Pedro tinha horror a pessoas pouco sexuais. Sentia o cheiro das glândulas inutéis. A boca seca dos círculos não preenchidos.
O olhar sem tumidez. A palavra esquecida de ser dita, o cheiro dos freios de borracha no asfalto a impedir a velocidade. O copo sem água.
Pessoas sem sexualidade, pessoas trancafiadas, inspiram até hoje em Pedro, o mesmo nojo que sexo sujo inspira nas pessoas ditas castas.
Botões na alma até o pescoço, olhar sem brilho, a pele esmaecida e esquecida do toque.
Pedro era um atleta, principalmente de cama. Horas de erguido rubor, tudo rosado, em cores que roubava do sol.
Metade alemão e italiano, metade brasileiro.
Pedrou encontrou a mim numa boate, encostada no balcão. Adivinhei que ele era de Venda Nova do Imigrante, mas ele era de Castelo. A boate era um inferninho. Eu era puro cansaço de conversas moles....

(continua)
posted by MARA CORADELLO 14:00
Comments:


Domingo, Outubro 15, 2006

 
deixa eu te cuidar de mim?


o vestido da noiva tem uma cauda
que depois da igreja se arrasta
e se suja, numa festa


encarde
limo
branco vira cinza
pequeno travestir de símbolos

nesta festa, como sempre,
pessoas usam óculos engraçados
e pelúcias
e ainda se casam
e uma depiladora no Centro de Vitória abre sua janela e ainda espera a pessoa dela
e "save me" toca sem interrupções
e as coisas se corrompem
sem nenhuma interferência

e o amigo num hotel, respira e tenta sair da cidade
mas o céu parou para provar que tudo pode errar
até mesmo o céu

e tudo é tão pequenamente grandioso
e eu espero

e alguém se apaixona numa boite
e alguém telefona de madrugada
e uma voz é mais rouca
e mais um avião cai
e vamos às duas da manhã tentar sair da cidade presídio Vitória
e não há vôos

e neste exato instante um homem decide se declarar para uma travesti
só porque vê duas pessoas tentar sair da cidade num jato

e se inspira nesta coragem falha de asas

porque existem aeroportos parados
como existem contradições
e eles são lavados
espuma
sabão
porque aeroportos são limpos?

aeroportos param e são limpos

e os dias parecem conter mensagens
e o cara interessante se perde em pequenas corrupções
deixa eu te cuidar de mim?

as corrupções da normalidade

quero fingir que quero me casar e ter dois filhos que eventualmente terão gripe
ir à Sardenha
fazer mestrado
me apaixonar e ser correspondido
por uma obsessão




posted by MARA CORADELLO 03:59
Comments:


Quinta-feira, Outubro 12, 2006

 

(antes escrito relaxado por querer, agora com correções para quase caber em seu padrão)

escritos de Cesquinetto....


do amor e de suas parcas economias além túmulo

Não, não tenho um amor e nada parecido acontece comigo desde que nasci.
meus pais também não se casaram por amor, foi por paixão.
Nasci de uma paixão. Dizem que senti em minha formação
muitos clímax e louvores à carne.
Contam que eu parecia gostar dessa representação para a adoração entre humanos.
Eu me mexia em uníssono com eles.


Sim, sinto essa lufada de vento e tenho a impressão de que vem do sul.

Tenho meio que medo de contar que escrevo automatico tomando chavenas de chá.
Um Kerouac doido de capim-limão escrevendo coisas mais delicadas que as madeleines de Proust,
escrevo você.

posted by MARA CORADELLO 13:05
Comments:


Terça-feira, Outubro 10, 2006

 
A obsessão nova assemelha-se à tatuagem inaugurada no sangue da tinta forte.
Sobra a vermelhidão dolorosa e tênue do início.
Depois provisoriamente corrompida pela crosta delicada.
Passar a língua em menta na tatuagem com a frase recém desenhada: meu corpo é sua casa.
Uma ginástica dos poros esta de não te querer.
Como se alcançar o zoom zum metálico da pele clara e minha onde se desenha tépido tecido novo de pigmentos que jamais pertenceram a esta mesma pele. Agora outra.
Como a nova obsessão.
Daqui em segredo vem a história, pontilhada de marinheiros, dragões e corações, arpões, tribais e arabescos e frases escritas em segredos molhados de sangue.
Do seu revestimento eu retirarei o congênito e a crosta da epiderme que seus pais te deram, em seguida colorir com o que pretendo: seu corpo é minha casa.
posted by MARA CORADELLO 04:51
Comments:


Segunda-feira, Outubro 02, 2006

 




O passado da semana anterior



Mara Coradello




Nunca pensei claramente em quanto atribuía culpas passadas a quem estava na minha frente no instante do agora.
Mas naquele dia o grande cavalo em que eu estava montado subiu sozinho as serras mais íngremes, alheio a minha vontade.
Era uma névoa tão espalhada que parecia que algo de nebuloso tinha se entornado de dentro da gente.
Semelhante à sopa que meu pai me deu quando eu era criança: "miolos meu filho, para que tenhas coragem de ser inteligente".
Miolos de vaca. Que parecia sopa de nuvens.
E foi exatamente neste dia de nuvens com seu algodão se desmantelando do céu que decidi não ir de carro à casa de Seu Joaquim.
Optei pela montaria e cheguei por volta de meio dia à casa dos meeiros. Eles faziam sopa e pude sentir o cheiro de miolos que subia pelas paredes e entrava nodoso em minha garganta. Neguei-me a almoçar.

O filho do Seu Joaquim estava sem camisa e pude ver assombrado o seu peito com tatuagens imensas, na verdade constrangi-me de olhar simplesmente, sem proferir palavra e logo falei no tom tímido, mas elevado de minha voz:

_ O que está escrito?

_ O nome de meu pai e o de minha mãe.

Soube que o rapaz tinha hábitos citadinos, falava inglês fluente e precisava de ajuda financeira, em forma de empréstimo, para seguir novamente para Governador Valadares, de onde ganharia o mundo. Soube que da última vez ele havia consertado com o dinheiro de seu trabalho todas as coisas quebradas na parte das terras que cabia ao pai. Porém, algo em seus olhos me fazia antever que era de sofrimento o que ele havia mandado pintar, construir e que o trabalho na fazenda não lhe conquistava. Era daquela imensidão no olhar dele, de planícies inquietas, que eu adivinhava também o que eu era.

A culpa de ter abandonado meus estudos, me lançado no mundo da jogatina e do supérfluo e o ruminar de que ele não voltaria desta vez me fizeram negar o empréstimo alegando poucas condições, havia mesmo sido um ano ruim. Naquela semana, especialmente, minha mulher me fizera dar uma festa com vinhos importados o que nem de longe dizimara as minhas economias, mas me parecia uma perda.









Ele assim mesmo partiu, e quando voltou, anos depois, me encontrou devendo a todos os bancos da pequena cidade. Os exageros para manter meu casamento nas palafitas frágeis de seus mais de doze anos não tinham sido o bastante. Vestidos de seda e felicidades fáceis ficam puídos com o tempo, esgarçam e voltam à condição de trapos assim que passam seus ares de novidade, seus cheiros de novo nas caixas com fitas e logotipos foscamente elegantes.


Era sua hora de me conceder um empréstimo. Só naquele momento soube que ele havia sido preso injustamente na viagem, exatamente por seus parcos recursos em
conseguir justiça paga, a única que presta no mundo inteiro, até naquelas terras estrangeiras.

Ele me perdoou. Emprestou-me o dinheiro que logo se converteu em mais terras. Dele.


Minha filha, já com dezenove anos, viu as tatuagens imensas do rapaz, que eu tenho de admitir: era de tal presença forte que me fazia ficar a espreita, afiado e a espera de alguma decepção.

A melancolia, por sua vez, permanecia em seus olhos, ainda mais adornada por suas convicções fortes e serenas:

_Vamos plantar nozes raras, criar rãs e cultivar madeira para a venda.

Alguns espécimes de árvores demorariam dez anos para erguerem-se fortes, outros cem anos.

_Vou batizar a todos com o nome de sua filha, e assim de seus netos.

O que fui no passado não era este que estava a minha frente, minha filha casou-se com ele e hoje sobrevôo essas árvores por cima, no alto. E ainda vejo a serenidade que insisti em não olhar, por medo de meu próprio passado.

Eu peço desculpas a ele como peço perdão por minha própria frivolidade, faço chover desse modo.

posted by MARA CORADELLO 00:17
Comments:


Domingo, Outubro 01, 2006

 
A coisa mais grandiosa que a alma humana faz neste mundo é ver alguma coisa... E ver claramente significa poesia, profecia e religião, juntas.
John Ruskins,

Pintores Modernos


posted by MARA CORADELLO 18:29
Comments:


This page is powered by Blogger. Isn't yours?