O caderno branco de Mora Mey

O caderno branco de Mora Mey

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Quinta-feira, Novembro 30, 2006

 
A crônica de ontem:


O amor favorito



Mara Coradello


Ele me chamava de nomes estranhos a meu vocabulário, era assim que brigávamos. Descobri, após alguns meses, que eram nomes retirados de seus dicionários, ele colecionava estes livros imensos e tão pesados que dobravam meus pulsos finos de então. Mesmo assim, nestes livros, não cabem todas as coisas. Eu ouvia que era estulta, e me surpreendia procurando a palavra em vão. Nos lábios dele tudo tinha outro significado, tão diverso e menos feio que o lido na cabeceira da mesa grande de trabalho, onde o mar nos mirava dia após dia.

Ele gostava de cães e gatos. Dizia que contar com o amor dos humanos era precário, humanos eram instáveis. Como eu. Tínhamos como cachorros Gogol, Shandy, e a cadela Rosa, a branca gata Clarice e o negro angorá: Osman. E tinha gaiolas vazias. Falava que era uma forma de não ter pássaros para si, mas lembrar que eles existiam. Nossa casa no alto do morro de onde víamos o mar era assim, repleta de gaiolas e ao redor um verde cheio de pequenas flores que cresciam como praga, eu nunca lhes soube o nome, eram pequenas e vazias de outro sentido que não os de viver e enfeitar.

Era, claro, uma casa de férias, numa praia perto daquela capital. Era como se morássemos juntos apenas nos finais de semana, feriados e em certas tardes comuns de quarta em que enlouquecíamos. Então nosso relacionamento era uma espécie de divertimento. Talvez perdurasse muito assim, mas decidimos quase sempre fazer as coisas não durarem, declaramos sua extinção como que em meio a um incêndio, viver tudo de súbito para que se estilhace em pedaços bem pequenos que não cortam, temos corações de duralex.

Então nos afastamos como forma de manter o fio que nos unia. O laço que à distância é elo frágil, mas bem perto ele cai no chão e se emaranha em nossos pés e tropeços. O cotidiano desgasta as coisas, somos vasilhames de uma porcelana que arranha?

Lembro dele quando faz tanto calor como nestes dias, de sua vontade que eu escrevesse mais, de sua coleção de frases feitas para ocasiões variadas. Ensinou-me a comer coisas que jamais suspeitei de que gostaria: ostras na praia, as unhas sujas do homem com sua faca, do limão e dos interiores de isopor cheio de marcas destas ostras. Pratos indianos, ou falsamente indianos, frangos com mangas e bebidas agudas, em meio a tudo isso eu crescia e todos os sabores não são mais meus favoritos, mas como não senti-los em dias e noites de tal calor?


P.s.: vocês que responderam com sugestões para o "Manual de procedimentos para sermos menos intensos" aguarde a próxima crônica, retomarei o assunto.


posted by MARA CORADELLO 19:07
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Quinta-feira, Novembro 23, 2006

 



Manual de procedimentos para ser menos intenso




Mara Coradello

Uma vez li a crônica "Receita de domingo", de Paulo Mendes Campos e me surpreendi com a facilidade com que este texto se fixou em mim. Uma das passagens que sempre me lembro é a sugestão para que deixemos as cortinas abertas, para que no domingo acordemos com a claridade natural. Um dos filmes que mais gostei no nosso festival de cinema também era um manual, então passei a semana a pensar em qual cartilha seria útil para mim.
Pensei enquanto entrava no Glória, pensei em meio aos filmes, pensei ao ir para casa, e enquanto caminhava, pensei em meio às cervejas pós-filmes.
Então vi certo olhar de um ser que perambula pelos mesmos lugares que eu, e descobri:
queria ser menos intensa e desfazer numa água qualquer este incêndio no meu lado esquerdo da caixa torácica.
Ser intenso é viver suspenso com sentimentos ventríloquos que nos fazem de marionete, que nos fazem de insônia. Sim, quase nunca pessoas leves são insones. As rasas então dormem como uma pelúcia. Mas isso pode ser ao contrário, tudo pode ser ao contrário.
Intensos costumam amar desajeitadamente, trabalhar em demasia e quando dançam, o fazem engraçado e muito.
Daí surgiram os primeiros tópicos do Manual para ser muito menos intenso. Que deve continuar em alguma próxima crônica, já que gastei grande parte deste meu espaço a explicar. Intensos costumam ser faladores, ou caladões convictos, me enquadro na primeira categoria. Adoraria sugestões de você, que pode sempre usar o e-mail, se tem receio de falar: escreva.

1) Sempre nos é permitido ser intensamente leves. Rir e não levar-se a sério, menos em velórios, mas pode tentá-lo em filas de banco, em pontos de ônibus, em engarrafamentos na Fernando Ferrari, na hora da briga com o seu par.
2) Saia à noite para um bar no bairro que você nunca foi, olhe as pessoas como velhas conhecidas, converse com o cara detrás do balcão, coma os ovos coloridos.
3) Ria de si mesmo, apareça mais ao espelho com sua touca de banho. Tente usar esta indumentária para o ser amado.
4) Desapareça, conte que seu celular caiu na água, que você teve uma gripe oriunda de extraterrestres que foram dissecados pela NASA, e, portanto, teve que faltar a todos os compromissos.
5) Coma a fruta que te lembra a infância. A minha seria um cajá robusto, que percebi somente ontem, ao olhar para o alto, é fruto da árvore de um dos meus restaurantes preferidos, fiquei feliz por dias com esta descoberta. Esqueça sua infância como ela foi e lembre-se do que você imaginava que ela seria. Olhe mais para o céu e não somente para ver se vem chuva.
6) Naquela festa quando te perguntarem "como a vida vai te tratando?" responda: "bem obrigado". Mesmo que ao responder "bem" você saiba que está sendo simplesmente obrigado.
7) Ao se queixar de dores saiba que está alimentando as mesmas, dores se nutrem de muxoxos, procure acupuntura, caminhadas na areia, água em copos coloridos, chás de cidreiras e quaisquer que sejam as indicações de saúde mais leves, creia nelas como verdade absoluta.
8) Não creia em verdades absolutas, mas creia em absolutos dias de chuva ou de sol, como inscrições do tempo em sua epiderme dos dias.
9) Tente pensar a frase de Paulo César Peréio: "desculpe-me, mas eu não tenho culpa de nada" * com parcimônia, mas pense e por vezes, fale.
10) Compre uma bicicleta, ou tire a ferrugem da sua. Arrume um cão para levar ao passeio, declare seu amor de supetão e depois retire o que disse, se a pessoa em questão correr. Tire a ferrugem dos sentimentos calados, eles acontecem na maresia da timidez. Enforque a timidez na árvore de ser ridículo. Ridículos são os que nunca confessam o crime do desejo.

* Frase escrita de lembrança por mim, já que ainda estou sem o livro "Por Que Se Mete, Porra? - Delicadezas de Paulo César Peréio", com projeto gráfico da artista plástica Pinky Wainer, Editora do Bispo, lançado no Vitória Cine Vídeo.

(crônica de ontem)
posted by MARA CORADELLO 13:41
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Quarta-feira, Novembro 22, 2006

 
eu que te amo tanto e tão somente porque não sabes que eu existo
e até escrevo sabes com este s no final para parecer mais fina do que sou
e até não sabes que eu hesito
e até disfarço meu desejo que combina com panos e lenços esgarçados na boca
com minhas pernas que têm um quê de afoita que sou
amarradas para que eu não corras
meu Deus, por quê amar tem de ser na segunda pessoa do singular da poesia ruim?
e com a louça quebrada da falta de glória dos que amam
amar é ser menos
nesses dias de então
minutos de cão
fazemos o jogo clássico de não mostrar
as vitrines que nos esperam são o reality show sensacional do possuir
então não telefonamos, quase nunca nos cumprimentamos efusivos discretos

pode aparecer o mais brevemente possível e me comer muito e me esgarçar como um lenço na boca
pode retirar de mim esta vergonha breve de ser cafona e de ouvir secretamente roberto na versão mais nova?
eu te proponho
mas sempre tenha cuidados
eu inutilmente posso enjoar e sempre posso ouvir pixies
posted by MARA CORADELLO 03:25
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Segunda-feira, Novembro 20, 2006

 
Aquele tambor incessante que se espalha por toda a sua cama, pelos pontos da tinta branca em cada milímetro de suas paredes. Eu sentia o tambor obcecado em contaminar cada amostra de meus poros.
Um coração ou uma granada é o que tenho entre minhas pernas e costelas?

O dia inteiro a busca da serenidade: olhar e fazer cara [de paisagens].
O asfixiante quarto sem paredes dos amores incorrespondidos.
O angustiante silêncio dos olhos daquele casal no restaurante.
Do elogio que não chega ao olhar: ela disse basta, e falou seu nome: Violeta.
Chegaria agora a contar a história das mortes delicadas que pensou para ele: Gregório.
A primeira foi o incêndio calado com o extintor da pouca dissimulação.
Ele percebeu e fechou o gás.
Então partiu para armas e para estratagemas de peles pouca expostas.
O que nos mata mais é o delicado medo de morrer.
Ele falou que o pau dele lateja como se houvesse neste um coração encrustrado.
Explodir a tudo em meio ao barulho que progressivamente expande-se.

posted by MARA CORADELLO 20:54
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Domingo, Novembro 19, 2006

 
Hidrantes


Para saber de mim é só perceber que: antes de tudo, sempre, ontem, para até amanhã e só enquanto vivemos, agora, neste instante, em qualquer que seja lido: acontece um incêndio.
Descaso, criminal, por cigarro, por economia, por karma, por curto, para caber num escrito, enfim: sempre haverá um incêndio.
Enquanto te olho e você recolhe aquele papel no chão e por ignorar em alguma parte do mundoeste, pelas asas da borboleta da fábula ruim, pela sua tatuagem que você ensaia fazer há dez anos.
É somente pela noção do incêndio é que não dizemos gritando a palavra fogo.
Essa guerra do oxigênio que significa retirar sempre a mão, a pele, o olho.
Já pensou que um incêndio só acontece porque quase tudo é de fato feito de epidermes? Algo que queima arquivos de ferro e desterra.
Você me pergunta: para quê fatalista e urgente? Eu imagino que sei do mundo. É apenas porque eu acho das coisas que perduram: elas precisam queimar somente para que, enfim, encontrem a sua extinção.

posted by MARA CORADELLO 05:18
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Quinta-feira, Novembro 16, 2006

 

(crônica de ontem)



Crônica em pedaços de mares
Mara Coradello


Eu deveria tentar entender o porquê daquela mulher aposentada ter posto fogo às vestes daquela senhora numa calçada de um de nossos grandes centros. E o nome daquela cidade não digo, por que seria mais uma cicatriz no mar de gente que mora naquela capital e está na hora de parar de pensar que o quintal do próximo é mais violento do que o nosso.

Ou deveria reclamar de que começou na segunda mais um festival. E que este ao contrário de ocupar mais de uma agenda no mesmo dia, ambas com o mesmo peso, estende as atrações uma por uma, por toda a semana, comprimindo pessoas em filas quase expostas nas ruas. E temos tantos espaços perfeitos para novos cinemas e tantos cinemas que poderiam participar da mostra. Mas somos fechados em nossas ilhotas.

Eu deveria ainda entender porque os bailes daquela parte aterrada da Ilha andam tão enfadonhos, nossa corte de ferro cada vez mais escondida no material de que é feita, ainda mais sorrateira em audiências populares para as quais eu não vejo, não leio, e não ouço convites.

E ainda deveria lembrar que na década de setenta a população impediu que o final da praia de Camburi abrigasse um estaleiro de reparos de navios, e perguntar ainda se agora nos mobilizaríamos para tanto, creio que não.

Mas o dia amanheceu calmo e eu regressei à minha infância, lembrei daquele animal marrom acinzentado, de proporções que ocupavam um pedaço a ser visto de longe de uma das praias de minhas memórias: Guriri.

Havia algo de assombroso e terno naquele animal, depois disseram que ele era de períodos remotos, que ficara congelado e ao sabor dos mares havia chegado até aquelas águas quentes.

Não sei por que inventei de lembrar desta minha vida distante, que o ofício de tentar ser cronista tem esses pormenores, acende as coisas já vistas com olhos do que poderá ser narrado, enfim.

Sei que hoje decido estranha semelhança entre um amor e aquela espécie de baleia: vindo do mesmo mar em que eu me banho, misterioso que mete medo e ainda insondável, ancestral. Eu que geralmente poupo a você leitor de meus adjetivos exploro ao máximo essa pobreza de estilo para dizer que acordei com um amor tão intenso, doce, amargo e quase esquecido como aquele imenso mamífero prostrado no dia nublado da minha praia distante. E desejo o mesmo a você.




posted by MARA CORADELLO 21:06
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Segunda-feira, Novembro 13, 2006

 
Dois artigos neste final de semana me fizeram repensar o realismo brasileiro. E o mais engraçado é que minha crônica desta semana, escrita antes de minhas leituras, também aponta para meu confrotamento e fuga do realismo, chamado pelo Rubem Fonseca de brutalismo.

Vejamos, meus queridos três leitores:

Clipping copiado do PublishNews:
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Uma provocação que não aponta rumos

O Globo - 11/11/2006 - por José Castello
O escritor argentino Julio Cortázar, um dos mais hábeis pensadores da literatura no século XX, disse certa vez: "O romance é um grande baú. O romance não tem leis". A idéia de Cortázar, que desdobra ao infinito as fronteiras e as possibilidades do romance, sobrevoa minha mente durante a leitura de Perder o sono; ganhar a noite (www.perderosono.blogspot.com), de Carlos Jaimovich. No seu livro, como nos conselhos de Cortázar, cabe tudo: reflexões sobre o mundo estilhaçado, experiências para a expansão da mente humana, pensamentos comandados por drogas pesadas, experiências jornalísticas na baixa política. O narrador é só um efeito, uma vítima, de toda essa zoeira. >> Link para matéria completa, entre aqui, vá até a página dois e use o menu, parece difícil, mas não.



O antifeminismo de Rubem Fonseca
O Estado de S. Paulo - 12/11/2006 - por Antonio Gonçalves Filho
O primeiro dos 27 contos breves do novo livro de Rubem Fonseca, Ela e outras mulheres (Companhia das Letras, 176 pp., R$ 34), tem o mesmo nome da garota de Lewis Carroll, mas o país em que vive não é exatamente o das maravilhas. Tanto pior. Alice, a professora que dá título ao primeiro conto, vive no Brasil. É uma espécie de arremedo da Fräulein que Mário de Andrade criou em 1927 no idílico Amar Verbo Intransitivo. O Brasil mudou nestes 80 anos. A literatura também. Ficou mais vulgar, mais imediatista e menos interessante que a dos nossos clássicos modernistas. É preciso reler Mário de Andrade para atestar nosso retrocesso cultural. Nós, que éramos tão modernos, afundamos no poço do verismo novecentista e na sintaxe miserável do pós-modernismo, reduzida a cacos pelos novos realistas (ou brutalistas, como costumam definir Fonseca). >> Leia mais (link para matéria completa, entre).
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posted by MARA CORADELLO 16:51
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Sexta-feira, Novembro 10, 2006

 
Após o exemplo do post abaixo, de meu texto de anos atrás, na verdade três anos, eu enxerto este link:

Nelson de Oliveira fala de Literatura Feminina no Cronópios

No site que sempre configura-se como o meu preferido sobre literatura, e eis que este é também um belo parecer, agora sobre a questão do gênero.

posted by MARA CORADELLO 13:48
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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

 
Para lembrar e perverter


Uma vez Teodora Bandeira
fez um manual de procedimentos
para lidar com ela.

{Estava tudo em meio a sua escrivaninha}:

Pense em mim como uma anêmona tola e deslizante.
Porém branca e única.
Perca seu tempo escolhendo as palavras que enfeitarão meus ouvidos.
Mais do que escolhendo brilhantes

Olhe para meus olhos com os seus olhos
Um vitral se estabelecerá, entre dois
No interior destes vitrais, uma religião qualquer que preza:
a leveza, a intensidade, a poesia, flores nos vasos
e o humour.

Saiba fazer drinques. Tenha bons aparatos sobre o corpo
pele, sardas e estratégias de desarmamento que sou Joana D´arc quanto me prosto
Passo dias catatônica
tenho implantes de títulos sob os fios naturais de meus cabelos.

Mas tenho de escová-los... enchendo esses títulos
dos cremes de tuas frases.

Me dissolvo como bicarbonato, se fores carinho e se me olhares de frente.
Mas quando eu me levantar... Podes me vigiar quando eu for ao banheiro (chega de usar toilletes) quando eu voltar
peça mais um dry martini e chore quando for a hora
saiba que sempre tento ir embora. Na melhor cena do filme segure as minhas mãos.

E nunca se esqueça, esse manual de procedimentos não será necessário
se souber da lua, da parte de palavras cruzadas no jornal,
de inventar sinestesias e das crianças engraxando as ruas. Se souber do bom,
do quente, e de cuidar._ Esqueça tudo, e deite-se ao meu lado.


posted by MARA CORADELLO 14:55
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Quinta-feira, Novembro 02, 2006

 
Crônica de quarta-feira passada.




Um país de homens e livros adulterados



Mara Coradello




É domingo nublado de eleições e este nosso Brasil me esvazia, como se minha alma fosse feita de um lápis e as ruas do meu bairro a apagassem aos poucos. Fui cumprir obrigações da democracia, uma contradição em termos. Exatamente na esquina do clube onde fui votar um mendigo de sexo e idade indefinidos, dormia. Ele (ou ela) tinha no chão sua cama e travesseiro, amaciando as pedras irregulares com seu corpo aparentemente magro. Tudo estava encoberto pela manta puída de um laranja ironicamente alegre. Menos seus pés claros com manchas de uma cor roxa que ainda não consegui apagar de minha memória.

Nada diferente de ontem: ao comprar um pastel de queijo na feira, eu ouvi meninos que me pediam para ser mãe, pari-los ao meio dia com uma nota amassada de um real. E senti a vergonha do medo pequeno burguês da minha bolsa ser arrancada por um sorriso.
No dia anterior ao sábado houve a atrocidade com o filho da Judith, ela que vinha às terças-feiras e aos sábados limpar a casa de nosso cotidiano. Dizem que seu filho morreu porque "mexia com drogas", talvez sim, talvez não. Boatos como folhas de um jornal invisível tecido no vento e nos sussurros do medo, vindo de onde não chegam as notícias, só saem.

O que eu tenho certeza é que Judith tinha os cabelos sempre presos em coque, e só usava roupas lisas, uma senhora discreta e com a serenidade do seu trabalho em completo silêncio. Gostaria de discordar do reclame que afirma que a elegância independe de classes, porque gostaria de propor justamente a lembrança às diferenças, mas Judith me fez saber que mesmo ao ganhar por dois dias de trabalho por semana, em cada casa de família, duzentos reais por mês, mantém sua boa combinação de tom de voz, gestos e sorrisos. Sem carteira, sem verdades que não: "se forem três dias vira vínculo empregatício".
E era aparentemente feliz mesmo que houvesse a constatação de que não podemos arcar mesmo com vínculos. Não se pode arcar com quase nada e nem assumir que se vota nulo: "mas a senhora tão esclarecida como pode ter votado nulo?".

Os sentimentos de não-confiança de quem votou nulo devem ser tão grandes que sequer comportavam a possibilidade de se rever o processo eleitoral. Este sentimento é o extremo, reflexo de algo que não pode ser medido em pedaços, algo que somente existe ou não existe: a esperança.

A esperança é a menos abstrata das abstrações, além de ser o nome do inseto que cantava surdamente em minha infância, pode-se quase senti-la em olhos, em perspectivas, mas somente em quem tem um estômago repleto de prováveis nutrientes.
Aquele mendigo na esquina do clube, ali perto da praia, me parecia uma profecia, espero que não.


Não sei por que lembrei da frase de Monteiro Lobato: "um país se faz de homens e livros". E lembrei de tudo que se adultera neste país em nome de interesses de uma conta bancária melhor provida, de um carro novo, de ternos bem cortados, ômega 3, beta caroteno, vinhos, lipoaspirações, narizes novos, jóias e quase nunca educação. Livros são comprados a metro, quando são. O que me faz crer que não há mais livros que sejam realmente relevantes, parecem todos de isopor e combinam com suas estantes caríssimas.

Talvez não haja sequer verdades que sejam enaltecidas e a poesia soa ridícula perto de meninos que cheiram a terebintina, perto dos preços nos supermercados, dos absurdos dos salários e do não-pagamento de horas extras que agüentamos quietos com receio de perder empregos e de não pagarmos o aluguel.

Um mendigo dormindo no dia 29 de outubro de 2006, no meio da rua, me tirou o sono, e parecia rir sem dentes de minha esperança escondida. E o mais incrível é que me surpreendi.





posted by MARA CORADELLO 13:57
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