O caderno branco de Mora Mey

O caderno branco de Mora Mey

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Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

 
Mando recado: ou faz-me falta sim


Sobre uma boa escritora que anda passando recados no seu blog, eu tenho duas coisas para falar:

o meu Fazes-me falta, da Ines Pedrosa, me faz muita, muita falta.

Assim como a revista PS:SP

Pensei em enviar um e-mail, mas me lembrei que já fiz isso...e resolvi imitar o que ela fez no blog dela.

Aviso que tenho tudo que peguei com você também, para destrocarmos.

Não tem nenhuma provocação neste post, nem entrelinhas, cada vez mais pratico menos estas esgrimas.

Apenas preciso da Ines Pedrosa porque vou usá-la numa oficina e num projeto de mestrado. E porque tenho receio de te procurar e enfim, as coisas ainda soam estranhas de qualquer forma.

Meu e-mail: maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 17:37
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Desde de que me mudei da cidade que me fez apaixonar, nunca mais voltei
minto, fiz uma entrevista de emprego para ser uma espécie de mascate de editora...
mas não passei...a verdade é que a cidade me fez apaixonar e desapaixonar
esquecer dela á fácil e suja apenas as mãos, com a tinta das letras
que saem do jornal


mas a cidade tem essa denonimação de polis porque comporta gente
gente boa, que conversa com você nos pontos de ônibus
que toma chope, que vai à praia, que não vai
que pega um ar condicionado no CCBB
que grita nas ruas e toma suco de frutas recém-criadas
uma cidade inteira como linhas das mãos da vida


ontem quando fui almoçar, na casa da minha mãe, como tenho feito diariamente até os putos me pagarem...
eu ouvi: "viu Mara, o que houve com o seu Rio de Janeiro?"

sonhei com Lisboa, com Porto e com Tatiana.
Que eu morava lá, longe deste tipo de mágoa

esse país tem sido uma mágoa a cada dia, eu quero ser salva daqui
ou quero tentar mudar algo aqui

eu não sei...eu quero, não quero
bem eu quero, mal eu quero
uma situação de desencanto total com esta coisa

dizem os ingleses que os otimistas são pessimistas mal informados, eu tentei muito ser desinformada

mas não quero mais esse torpor


http://oglobo.globo.com/blogs/frontdorio/

http://oglobo.globo.com/blogs/ximenes/

posted by MARA CORADELLO 16:47
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Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

 
A Felicidade é um Bocado Simples


Mara Coradello


Um dia de sol e folguedos. Uma maneira daquela moça caminhar em direção a seu amante.
Ela tinha 29 anos e morava numa pequena cidade do Espírito Santo.
Só poderia encontrar com ele em suas pequenas viagens de negócios à cidades vizinhas, por ele ser casado e nós sabemos o quanto de desesperança ela teria que cultivar. Manicure, assoprava o esmalte azul claro da cliente com olhos na porta esperando a hora em que ele entraria para limpar as unhas dos pés.
Calos de amor nos pés, calos de andar até os arredores da cidade fingindo estar preocupado com sua boa forma e com esperança de que ninguém desconfiasse de que ela o esperava na porteira, encostada nesse portão de madeira semelhante ao esqueleto de uma pipa.

Várias vezes ele lhe deu carona ao voltarem da missa.
Ela andava atrás no carro. Uma das coisas que deveriam deixá-la triste mas a deixavam feliz por poder assim aspirar o perfume dele: sabão em pó e anil das camisas, o leite de rosas das axilas e um leve gotejar de poros que ela sequer sabia do que se tratava, mas era o desejo.

Neste dia ele entrou e a procurou sem delongas.
Ela fez as unhas dos pés dele como gostava, sem base.
Lixou as solas e passou a loção hidratante Universal e logo depois
eles saíram de mão dadas e foram à praça tomar um sorvete, na verdade, dois.
Se eles não estivessem tão felizes observariam a hostilidade crescente ao redor deles.

Mas simplesmente olhavam apenas um para os olhos do outro.
Era começo de outono.

posted by MARA CORADELLO 07:01
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Terça-feira, Dezembro 05, 2006

 
Então a pergunta sobre lobotomia foi despejada em meio a um solo de sintetizador. E as noites todas coloridas vieram à sua mente. Era mil novecentos e noventa e três, mas poderia ser agora, e ela escrevia este texto para fugir de tarefas regulares do seu dia. Havia frascos como medidores e novos remédios para serem testados. O laboratório era de azulejos brancos e poderia ser sua cabeça por dentro: coisas coloridas em meio ao asséptico. Um homem não é um homem. É a soma do tempo, este, que me contou ontem Eco, é determinante sim. O tempo organiza tudo e nada do que fizemos pode ser apagado. Nesse exato momento ela me lembra de Borges, que a contou outras coisas. Eu a beijo e tenho de perdoá-la pelo horror a minha barba de três dias trancado tomando K. Não é curioso que o nome do alter ego de Kafka tenha virado nome de droga? Ela volta a falar da espécie de impossibilidade de apagarmos o que foi feito, me lembra mais uma referência literária, agora a vontade do narrador no melhor livro de Calvino: de fazer retornar o tempo. Alguém aí reclama que está muito cheio de referências este escrito. Eu explico que eu, narrador homem a serviço de Mara Coradello, estou estudando com ela para o mestrado, cheio de teorias na cabeça, e ela está ao meu lado, me ditando as palavras bem em meu ouvido esquerdo. Voltando: sobre apagar o tempo a sugestão daquela mulher de "Se um viajante numa noite de inverno", não é o bastante, ela aconselha a voltarmos os ponteiros do relógio.Tola. Eu aconselho lobotomia, vou tirar a parte em que se lembra que houve aquela noite de sexo casual entre a mulher que sopra em meus ouvidos e aquele idiota. Vou fazê-la voltar para casa antes, em lugar dos grunhidos e gozos inesquecíveis. Mas isso é um filme? Não tem idéia melhor? Hipnose. Mas você, de uma vez por todas, vê se aprende que não existe sexo puramente casual, as probabilidades de se apaixonar durante o coito são imensas e não é apenas categorizando "esta é uma trepada casual" que isolamos a possibilidade de paixão, pensei que já houvesse percebido isso. Ela retorna dizendo que o acha rídiculo, que não aprecia as pestanas loiras, o ar de boneco de bolo de noiva. Eu a lembro da quantidade visceral de orgasmos e como ela lembra dele o dia todo, em vários segundos que somados perfilavam horas, um grande percentual de sua vida atual. Isso se esquecermos de lembrar os sonhos. Ela chora copiosamente. A imbecil.
posted by MARA CORADELLO 19:01
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