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Audrey Hepburn - Moon River (Breakfast At Tiffany's End)
Só para os adoradores. Curiosos: se não gostarem eu entendo...
posted by MARA CORADELLO 21:45
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Crônica da semana passada:
Correio sentimental anônimo
Mara Coradello
Vou escrever assim, feito um diário decomposto. Desses do tipo que você abre o peixe e as espinhas saem inteiras. Pena que as vísceras apareçam de chofre. Uma das coisas melhores e menores de estar longe de você: estar longe. Não compactuar com suas verdades pequenas, escondidas entre trejeitos. Eu queria tanto amar o que passou, apenas porque amar o que passou seria amar o que eu fui. Ao contrário, eu odeio e depois esqueço. Traíras são peixes onde se retiram espinhas com pinças.
Penso em distâncias e pormenores das separações dos outros. Entre as cortinas laranja uma cidade compacta como as linhas da minha mão. A sensação de estar sempre deitada nessa cama de dossel que é Vitória, longe dos jogos e dos eixos. Consigo enfim voltar ao meu romance (o livro) e compro uma bicicleta. E pedalo. Imagino que toda separação necessita deste fim da admiração, por isso os casais inventam formas de se odiarem, se falam mal mutuamente mesmo que seja (ah, os discursos da classe média) no analista. Dois no caso, o meu e o seu.
E isso parece não mais importar quando eu vejo alguma fagulha ainda acesa sobre a tampa já fechada.
Frutas na geladeira, roupas novas em azuis, nova cor de cabelo, novo peso na balança, objetos pairando inertes nas sombras que o sol escalda.
É absolutamente verão por aqui e penso que eu deveria ter um romance desta estação. Parar com o Naftalinas e escrever um lindo livro de verão. Quem foi que pensou em casos com surfistas? Falo do romance gênero, assunto que me poupou de passar em um mestrado.
Cerveja combina com tudo aqui, mais perto da Bahia que de São Paulo.
As horas se espreguiçam na castanheira do quintal.
E escrever para vocês me lembra meu passeio no MASP, ano retrasado: olhar os Renoir e me sentir vigiada em cada passo, enquanto imagino um estilete em meu bolso.
Para amar tanto é necessário odiar mais ainda em cada final. E tornar-se amigo só é permitido aos casais que se amaram mais ainda que nós ou muito menos. Fomos tão voláteis.
Durma bem pensando que perco a noção do ridículo e que teço essa história para outro, não para você. Tenho tantos amores que pensei em pedir um novo no réveillon, um ano com cheiro de livro novo para todos nós e que os plurais não nos causem estranheza, assim como a soma e a divisão.
Que as antuérpias e bilbaos sejam mais que nomes estranhos num mapa-múndi da memória rarefeita do que não vivemos.
Que eu fume menos, para seu prazer. Que consiga ser uma ex melhor, uma atual mais saciada, uma mulher de voz calma e com alma leve sem ostentar isso rudemente, que o mundo estranha esse inefável.
Construir coisas perenes com a inexatidão de quem pensa que o castelo vai cair, de cartas. E lembrar que amar é mesmo apenas uma réstia deste sol imenso que é a vida. Eu estava pedalando agora e pensando nisso, descubro que escrevo mais depois de pedalar do que depois de beber. Vou nadar, então, e fazer hidroginástica, e ainda comer mais folhas, volta e meia um porre de uísque com gelo de água de coco, sou herege e daí?
Tenho músicas novas para ouvir e provavelmente passarei o ano novo em Portugal. Tenho ainda um ou dois sonhos destes sonhos de verdade, com os olhos fechados e travesseiros, que espero realizar. Você tem algum? Não? Então anda dormindo pouco ou comendo só proteínas à noite...Cuidado, isso emagrece os sonhos.
posted by MARA CORADELLO 11:37
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ùltima crônica:
Por uma vida menos ordinária
Mara Coradello
As crianças que nascem acidentalmente, mesmo quando os futuros pais estão previamente protegidos, descobrem logo que a vida é inesperada. Claro que sabem disso apenas antes de aprenderem qualquer outra coisa, no tempo em que têm moleira ou quando colocamos pequenos pedaços de linhas vermelhas amarradas em suas frontes, para afastar-lhes soluços.
A mulher que veio embora da cidade ex-maravilhosa, agora vê o ex-amor todos os dias, no mesmo horário, na mesma novela das sete. E ele que agora estampa várias estantes de salas anônimas com seus traços muito melhores pessoalmente, também sabe que a vida é inesperada.
Os amigos que foram embora e percebem que amam novamente este Estado cálido e querem secretamente voltar, mas não admitem, também sabem que é tudo assim mesmo insondável.
Os olhos de um cachorro cego na foto suja de lama de um casebre no Capão Redondo, também parecem dizer que a vida é inesperada.
Quanto àquele senhor, o pequeno furo na melhor calça de linho o faz lembrar do dia em que conheceu a avó dos seus netos, no casamento chato do melhor amigo, quando esta mesma calça ainda integrava um terno, e isso faz com que reflita sobre como a vida é exemplarmente inesperada.
Por não nos pertencer plenamente há este inesperado da vida. E exatamente por ser inesperada ela somente cabe em nossas escolhas. E ao Deus das pequenas coisas.
Dobrar uma esquina e começar tudo de novo. Apaixonar-se na banca de
revistas ao descobrir enfim quem é a moça que compra todos os meses o
outro exemplar da sua revista favorita.
Sonhar com um olhar e cruzar com ele numa esquina da Paulista.
Esperar o inesperado então, e por mais contraditório que isso possa parecer esta espera preenche mesmo que seja do nada que é o surgir do inédito, dos novos e mesmos sonhos, a cada improvável manhã.
posted by MARA CORADELLO 14:26