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Crônica de ontem em A Gazeta, para quem ler isto aqui na posteridade, vale lembrar que ontem foi quarta-feira de cinzas.
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Água-de-coco
Mara Coradello
Da confusão do carnaval eu lembro de minha primeira fantasia, de baiana. Uma baiana desenhada por uma tia e costurada pela minha avó paterna. Havia pulseirinhas prateadas e o tecido, se não me falha a memória, era branco, quase um tecido cru, semelhante ao usado para panos de chão. Não sei se porque me marcou muito, ou se faço uma espécie de regressão autorizada quando escrevo, eu lembro também do que senti. Lembro de ter sido uma criança mal-humorada, neste dia especialmente.
Ao observar alguns coleguinhas no salão, não entendi sua superlativa felicidade. Fiquei ressabiada e surpresa com uma bailarina toda rosa que me perguntou por que eu não pulava. E em algum momento me juntei ao bloco dos tímidos e integramos uma nova ala, quase uma profecia do que seria minha vida dali por diante.
O carnaval sempre foi um assombro para mim. Igualmente nas ocasiões em que me isolei e quando me misturei à multidão. Entendo o carnaval como o sintoma que o precede: uma imensa ressaca. E essa é uma crônica sobre ressacas. E sobre como cuidar delas, a primeira receita contra ressaca é simples: não abusar de nenhuma bebida alcoólica.
Dizem que misturar destilados com fermentados não interfere em nada, porque para o fígado álcool é álcool, ele sequer diferencia uísque nacional de escocês. O fígado é incorruptível. Não é sensível ao que gastamos. Porém, algumas bebidas de má procedência trazem outros venenos além do álcool (metanol é um deles, ou quem sabe iodo).
Então mesmo sem as obsessões com grifes ou com o "bouquet" no vinho, realmente importa a qualidade da bebida. Eu desconfio da fermentação da cerveja nacional há muito tempo, desde que uma amiga me alertou que a indústria se propõe a fazer exatamente o que vai vendendo, conforme a demanda. Não há tempo para uma fermentação natural e requintes de preciosismo. Desconfio tanto que todos os verões eu provo várias cervejas, para descobrir qual de fato tem o melhor sabor, e a melhor qualidade no dia seguinte, quando de fato se conhece uma boa bebida.
Há muito aprendi que o álcool resseca nosso organismo, por isso esqueça dietas ao beber, vá de gordurinhas, sem exageros, claro, um queijo, um bom queijo sempre ajuda a gente a viver e pastéis, definitivamente, pastéis.
Mas o método James Bond também é ótimo: alternar bebida com água, no caso dele eram destilados. Sempre tome muita água e não enferruja, é exatamente o contrário. Além de confessar que tenho ressacas, ou seja, que ingiro bebidas alcoólicas, mesmo conhecendo as regras, mas com dissoluto prazer em quebrá-las, ainda confesso que gosto, eventualmente, de coisas fortes. Aliás, as antigas "bebidas de mulher", que eram doces e fracas, não são mais chamadas assim, mulheres tomam vodca pela elegância do odor, pelas baixas calorias e oras, pela rapidez do efeito desinibidor.
Sei que pensando em vias mais sensatas, a verdade mais coerente não é o "in vino veritas", expressão latina que nos lembra que o álcool nos torna espontâneos. Prefiro um provérbio que, de acordo com um dos mais completos estudos sobre alcoolismo, do doutor George Vaillant, diz que "primeiro o homem toma uma bebida, e depois a bebida toma o homem".
De qualquer forma, falemos do agora. Você que bebeu, abusou em nome do carnaval e preferia um quarto escuro e muita água, mas tem um dia inteiro, ou uma tarde pela frente e para meu alento, está lendo esta crônica maltrapilha, desejo que esqueça a culpa. Essa, sim a maior causadora de ressacas monumentais. Sei que você deve ter prometido nunca mais beber nada que tenha o éter malogrado, culpado pela deterioração de tantos lares, mas vamos ser leves, e pensar que apesar de tudo, estamos no Espírito Santo, e deve, eu posso apostar que sim, ter alguma forma de conseguir uma bucólica água-de-coco.
A despeito da existência de diversos refrigerantes, remédios, e estes coloridos e fantásticos repositores de hidratação em nossos corpos, que no fundo nem sei do que são feitos, existe e quase sempre existiu a água-de-coco. O que me faz, insensatamente, ter uma epifania, herege talvez, mas confesso: no mesmo mundo existem o álcool e a água-de-coco, o que me faz achar que o Criador pensou no dia seguinte.
posted by MARA CORADELLO 10:17
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Crônica de ontem no jornal A Gazeta:
Onde não haveria uma crônica
Mara Coradello
Sei que aqui é lugar de ser leve, e que estamos convocados na crônica a narrar o pessoal e o próximo e ainda lembro que quando me convidaram, pediram para que eu falasse de amor.
Mas o João está em todos os meus olhares. Não vi o Fantástico domingo, evitei por dois dias ler a notícia que me acenava e era imediatamente bloqueada nos sites e jornais: eu mudava de página, entrava em outro link, mas em algum momento, sucumbi. Era uma sexta-feira em que eu acordara imensamente feliz, sem motivo algum como é de fato e de direito das felicidades enormes, e o João atravessou na minha frente e eu senti que era carioca antes de ser brasileira porque sou capixaba, mas estou sempre ao lado da cidade onde publicaram meu primeiro livro, onde os jornais me deram janelinhas, onde eu tanto aprendi a conversar em ponto de ônibus quanto a desconfiar. Só que não é somente do Rio o problema e nem da maioridade ou não dos assassinos do João. Entre outras dores, tenho receio de que ele deixe de ser uma criança e torne-se somente uma espécie de mártir longínquo e irreal de uma nova religião. Nunca a mesma religião que impede a distribuição de pílulas nas favelas do Rio, ou daquela outra que fala que camisinha é pecado, mas uma religião que nos narcotiza cada vez mais, nos faz ser convocados, como disse Viviane Mosé, a recomeçar ou nos propõe "um minuto de reflexão". Sim, admito que vi trechos do Fantástico, mas na tela pequena da Internet, talvez nem um terço de todo o programa. Sei que as favelas no Rio interagem com a riqueza da Zona Sul, sei que nos sentimos mais seguros em quase todas as cidades do Brasil do que no Rio de Janeiro, sei que o último governo daquele Estado merece grande parcela da culpa, mas sei que nós que amamos o Rio de Janeiro temos de nos solidarizar e lembrar que nosso telhado é de vidro, estatisticamente não estamos tão bonitos assim e somos geograficamente mais aptos a ter desigualdades sanadas do que o Rio. E mais: sei que não quero pensar em civilização, em barbárie, em condição humana e coisas filosofais, quero que eles peguem mais de oitenta anos de cadeia cada um, só isso me faria achar novamente que este mundo tenta ser justo. E que nós humanos ainda tentamos frear nossos instintos cruéis. Como aquele psiquiatra falou na TV, realmente não somos anjos caídos, mas o João era. Ele sim era menor de idade, tinha apenas seis anos. Seis anos. Soube que populares falaram que ouviram os assassinos gritarem de dentro do carro que João Hélio era "o boneco de Judas deles". Isso eu achei em minha busca, de soslaio, com olhos embaçados e embasbacados, porque ainda não consigo entender e já que não podemos extinguir parte da humanidade (até porque não temos mecanismos que comprovem com segurança qual parte merece ficar, qual merece ir, e ainda se de fato é melhor ir ou ficar) devemos ao menos tentar parar de nascer tão desenfreadamente. E estas palavras talvez não devessem ter nascido, são em vão, hoje perco o sentido, pela primeira vez sinto que aqui deveria existir um espaço de luto, um retângulo escuro e essa borra que me toma a alma se mostraria completa, hoje simplesmente não há palavras.
posted by MARA CORADELLO 10:46
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Qual música você quer que toquem no seu enterro?
Eis a minha:
Via via...
Vieni via con me.
Niente più ti lega a questi luoghi
Neanche questi fiori azzuri.Via via ...
Neanche questo tempo grigio,
pieno di musiche
e di uomini che ti son piaciuti.It´s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
Good luck my baby
It`s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
I dream of you
Chips chips chips
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du duVia via ...
Vieni via con me.
Entra in questo amore buio
Non perderti per niente al mondo
Via via ...
Non perderti per niente al mondo
Lo spettacolo d`arte varia
Di uno innamorato di te.It`s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
Good luck my baby
It`s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
I dream of you
Chips chips chips
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du duVia via ...
Vieni via con me.
Entra in questo amore buio
Pieno di uomini.
Via via ...
Entra e fatti un bagno caldo
C`è un accappatoio azzurro
Fuori piove, è un mondo freddo.It`s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
Good luck my baby
It`s wonderful
It`s wonderful
It`s wonderful
I dream of you
Chips chips chips
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du du
Ci bum ci bum bum
Du du du du du
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É do Paulo Conte.
E é apenas pensando na alegria de vocês, meus seis leitores que nunca mais comentam, que eu achei no Youtube a canção que ouço com Fernando, no carro, geralmente depois de hic! algum espumante ou uísque: parece chato no começo, eu sinceramente não entendo o que ele fala, mas logo vem a música, a qual eu queria dividir, saiu até matéria sobre ele na Bravo (oh!) e parece que ele é um grande sucesso na terra de meus bisavós (oh ²!).
Sempre ouço a letra imaginando Deus falando comigo...vai entender. Agora estou baixando outras dele, e eu sei, tenho um gosto um tanto esquizofrênico para músicas e claro, para enterros. E ele parece uma mistura de Tom Waits com alguma coisa que eu ainda não detectei.
O youtube está meio capenga, a versão que Fernando tem ( ele nem usa internet e nem grava CD´s, humpf, eu mereço) é muito melhor, ou o teor etílico ajuda...
Divirtam-se e me contem o que acharam (estou apelando por um eco!). E claro, me falem nos comentários, qual a música que tocaremos em seu enterro.
Beijos e amo todos vocês ( e este dia, e este mundo e o gosto do café, e escrever e lálárilá....)
posted by MARA CORADELLO 02:23
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Se algum dia eu terminar algo, se eu começar algo...eu quero que seja esta a música do fim:
Leve
Chico Buarque
Composição: Carlinhos Vergueiro - Chico Buarque
Não me leve a mal
Me leve à toa pela última vez
A um quiosque, ao planetário
Ao cais do porto, ao paço
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo
Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será um caminho bom
Mas não me leve
Não me leve a mal
Me leve apenas para andar por aí
Na lagoa, no cemitério
Na areia, no mormaço
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo
Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será tudo de bom
Mas não me leve
O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo
posted by MARA CORADELLO 17:02
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"É bem comida essa baixinha. Ela passa com seu sorriso estampado, quase humilhando o mundo a sua volta. Quase negra. Ela passeia com sua bunda genética e uns peitinhos do tamanho certo. É crente, a safada. Se vê pelo seu cabelo mal arrumado, pela roupa feia, pela saia justa. Ai, essa saia justa. A gente percebe que ela não ama, nem é amada. Mulher que ama não carrega esse sorriso, mulher que é amada também não. Ela não tem cara de feliz. Ela não. Ela tem cara de satisfeita."
postado por: RONALDO VENTURA 8:19 AM
retirado prazeirosamente do: http://www.piratacurupira.blogger.com.br/
posted by MARA CORADELLO 22:10
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O homem de palito na boca
Posto agora nua da cintura para cima, com uma toalha verde cor de grilo enrolada de qualquer jeito na cadeira que eu queria comprar, mas ainda não, então é esta mesmo.
Hoje no almoço fui ao refeitório do Alice, no Centro, aquele self service que parece um refeitório e comi carnes e cenouras e fui ao toilete (estava escrito assim, só repito) escovar dentes, lavar rosto com neutrogena, passar fio dental, e pó facial e batom e trazer de volta parte da minha cor. E esqueci a tal comanda e voltei e achei e tinha um homem alto, magro do jeito certo, com ombros largos e cabelos lisos com bom corte, camiseta de malhar branca e jeans...e com palito na boca, no canto da boca, e eu pensei o quanto ele era bonito e mal educado e tive naúsea do palito, mas ele me emprestou, com gentileza ímpar, 43 centavos, para ajudar a caixa talvez, porque eu tinha 55 reais e a nota de cinqüenta teria que ser trocada por que não tinha 43 centavos de jeito algum, fui ao Centro pagar contas. Então o palito na boca passou batido, eu esqueci e queria me atracar com ele na primeira praça vazia no Centro, talvez aquela que tem o índio, mas apenas falei obrigada. E meu almoço custou 5,43.
Acho que estou com problemas mas quando lembro de você, lembro de todo esforço que tenho de fazer, para falar com você e te provar que não, que eu não sou assim com todos, que não, não vou te cobrar nunca o que eu faço de bom para você. Que sim, eu espanto homens como um repelente aos mosquitos, não pelo odor, que eu mantenho agradável, mas pelas despalavras. É só esta certeza louca que aponta em mim, dentro do meu estômago e me revira toda, as células desfolhadas, abertos os poros pelo calor, a tarde toda dentro de mim, eu cheia e os navios do porto de Vitória eu imagino sendo vistos por você, quando você chegar. E eu que pensava longos parágrafos, penso tudo em frases curtas e meu fôlego pede que eu pedale, que eu volte a nadar, que eu caminhe, mas eu me prosto aqui parada, encontrando você e quando nos imagino, surge uma grande fusão na minha mente e não se trata de sexo, infelizmente, sexo seria fácil de resolver, com o homem do palito na boca, ele deve ter um metro e oitenta e seis e eu deveria encontrar novamente indo novamemente (repito palavras porque quero, ora bolas) almoçar lá. No refeitório do Alice. E eu andaria pela Cidade Alta e iria no MAES e tudo que eu fizesse seria para não ficar olhando e imaginando, sofrendo deste mal incurável que é a esperança.
posted by MARA CORADELLO 20:53
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Quase desespero é quando você vai dormir e fica feliz, por enfim, ter tido uma bela noite de sono e descobre que passaram-se apenas trinta minutos.
Esquecimento é quando você acaba de ficar mais calmo depois do calmante e olha para o mármore da bancada da sua cozinha e descobre solitária e risonha, a pílula intocada.
Liberdade? Às vezes é somente a maior das solidões.
posted by MARA CORADELLO 16:52
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(crônica em A Gazeta, ontem):
Trivialidades
MaraCoradello
Dedicada a A.C.G.
No começo discutíamos trivialidades. Ele elogiou o cheiro de chuva em Vitória. Eu falei que o cheiro da chuva na verdade era odor de ozônio e não da terra molhada, como sempre imaginamos saber. Em troca ele acabou com minhas ilusões sobre o azul do céu, explicou tudo de maneira tão científica que nunca mais vi nuvens da mesma forma algodoada, macia e tantos outros adjetivos que eu tinha guardado só para elas. Brigávamos por qualquer motivo, o puro exercício da verve e do cinismo. Sobre a cor da xícara, sobre a postura que eu deveria usar com determinados clientes, sobre política. Ele era de direita a despeito de dizer que a esquerda nem mais existia. Eram meses de tango constante e eu sabia como os tangos terminariam. Mas mudei de idéia com o espetáculo Lecuona do Grupo Corpo. Qual não foi minha surpresa ao ver o par de dois (posso chamar pas de deux assim?) que mostra a mulher inclinando o homem, com tanta graça e feminilidade, num vestido longo de um vermelho óbvio. Mas nesta vida com passagens rápidas para a próxima cena (posso chamar fast forward assim?) há momentos em que temos de ser óbvios.
Como nós dois. Era a clássica história chavão de tantos filmes românticos: ele me odiava eu implicava com ele. Eu era mais alta e mais rotunda que o seu padrão e ele ainda implicava, sabiamente confesso, com meu cigarro. E ainda mandava que eu fosse mais sucinta e objetiva. Ensinou-me que justamente por sermos, nós do sexo feminino, por sermos criticadas pela nossa variação de humor, não devemos nunca nos esquecer de manter-nos sob controle, quietas e sóbrias ao ouvir piadas machistas. Pontos para ele. Eu aprendi. Será que está certo?
E comecei a aprender demais. A quase ter carinho pela forma como nossas discussões pareciam cada vez mais as de um casal na estrada, tentando achar uma casa, uma palhoça, uma pousada ou um chalé numa praia num interior da Bahia. Quando inevitavelmente descobrimos que nossa energia estava sendo desviada de um centro para outro e não posso ser óbvia agora, há crianças lendo.
A despeito de ser vista sempre sozinha a autora da história acima, que se pretende crônica, teve este amor, que tinha uma casa de praia próxima daquela capital. O amor tinha a casa de praia, numa estrada fácil de achar. Um dia eles brigaram mais ásperos e ele apareceu na portaria do prédio onde ela morava num quarto na casa da tia. Ele trazia a filha, a prova quase antiética de que a coisa era para valer. O mais prosaico de tudo, por mais que a palavra prosaico lembre um antidepressivo, foi que eles não terminaram juntos. Ele tinha uma filha de cinco anos, uma ex-mulher que era mais antiga que a nossa heroína que por mais que tentasse pertencer a um filme de Fellini era mesmo uma mocinha de Nancy Meyers, a roteirista, produtora e diretora de "O amor não tira férias". E ela descobriu que ainda gostava de histórias com finais infelizes, uma herança de um ou outro Bergman, alguns Almodóvares, de Romeu e Julieta e principalmente do livro de Emily Brönte: O morro dos ventos uivantes.
Mas nem tudo está perdido, apesar de todas essas referências ela foi vista vendo a obra completa de Nancy Meyers neste fim de semana e ainda leu Jane Austen, explico: ela quer acreditar.
Ela me visitou hoje, tomamos um vinho branco à velha moda da década de oitenta, quase cafona em sua cor que traz menos daquelas substâncias de nomes esnobes que evitam o envelhecer: esta arte nada esnobe que é amadurecer e cair de leve.
De leve como a vida da moça, minha amiga e personagem, que decidiu mais uma vez se aventurar numa história nova em folha, ou nova em e-mails, vá lá que estamos em 2007, dizem. Porque o amor, a paixão, ou seja lá o que isso vai virar, serve mesmo como um ponto de fuga, um refresco interno, um lugar para onde podemos sempre fugir no meio do dia e se tivermos sorte e paciência, e cuidados com o outro e conosco, poderemos fugir para o amor também no fim do dia: creiamos.
posted by MARA CORADELLO 10:23