Crônica de ontem publicada no Jornal A Gazeta.
Coisas para se fazer nas tardes mais felizes
Mara Coradello
Quando você me pediu criatividade naquela tarde de sábado esqueci de te recomendar um livro que li e que me salva sempre, aquele do Rubem Braga.
Ele faz tardes de sábado tão boas que ainda nos preparam para as tardes de domingo.
Eu leria o meu "O que eu amava", da Siri Hustvedt, para te acompanhar.
Esqueci de te sugerir uma ida a nossos museus, aquele restaurante na Barra do Jucu que serve moqueca de banana a preço irrisório e a um sabor inesquecível.
Esqueci de te levar naquela lagoa bem perto daqui.
Te convidaria para tomar café com doces, ou uma boa massa, exatamente nesta ordem inversa, porque era sábado sem sol.
E ainda fiz pouco caso pedindo para continuar a dormir.
É que não sou tão diferente assim: esqueço sempre de pensar em ser feliz simplesmente, mas sei que devo ser, mesmo que os acontecimentos delicados sejam pulverizados entre fatos das primeiras páginas da vida.
Poderíamos ter ido a Manguinhos, mesmo sem sol, ainda encontramos bons camarões por lá, e adoro aquele muro que emoldura a vista da praia.
E andar nas ruas da Praia do Canto e ver os cachorros desfilarem, levando seus donos a caminhar.
Poderíamos ter escrito um poema a quatro mãos. Ter brincado de correr e ver a palavra Igualdade na Praça dos Namorados, refletindo a cidade que passa.
Poderíamos tantas e variadas coisas. Uma caipirinha no restaurante favorito em Vila Velha, a circular com os olhos ao mar da Praia da Costa.
Mas esse "o que poderíamos ter feito" é que segue atravessado na garganta, e como houve outras tardes de sábado depois daquela, muitas sem te ver, ainda me pego inventando coisas: pratos por fazer, viagens para Riacho Doce, visitas a ateliês de artistas que nos receberiam com seus cheiros de tintas e de arte.
Mesmo que alguns mais contemporâneos ao pé da letra prescindam de tintas. Sem prescindir de arte.
E há duas galerias que abrem suas portas pontualmente aos sábados.
Nem falei em praias porque naquele sábado estávamos sem sol.
Mesmo assim elas estão todas aí... Poderíamos ter ido pedalar pela cidade. Poderíamos. Tantas coisas que agora faço em minha imaginação ao menos, esses pontuais passeios do sábado que não houve.
posted by MARA CORADELLO 14:56
Crônica de ontem:
Os Riscos Além da Sua Janela_
Escritos soltos para dias felizes
Mara Coradello
1)Vida modo de usar: propostas de utilização.
Veja: há uma luz lá fora, intensa. E os amigos perguntam por você. O sol faz as cores se espreguiçarem, mas elas podem ser delicadas nos seus óculos escuros. Lembra quando você era criança e queria muito usá-los? Agora você pode. Você poderá sentir o vento. E o vento destes dias de março deve te pegar de jeito, numa grande lufada quente. E uma escritora para-sempre-iniciante, como eu, pensa em chamar lufada de outro nome, mas admite que tem um dicionário de palavras queridas que se intrometem. E ainda sei que você pode descobrir coisas geladas pequenas, picolés de frutas, três por um real e cinqüenta centavos. E tomar água mineral com gás nesta cidade ao olhar navios é um programa extra-sensorial. E é sempre bom lembrar que apesar de confundirmos intensidade com urgência, não há pressa.
As coisas todas poderão esperar por você, elas me dizem que concordam. E há música estendida nas calçadas. E eu penso como deve ser acordar todos os dias, estender um pano qualquer e vender semi-originais. Não os chamo de piratas, eu gosto de nomes maquilados. E há pessoas que têm sempre um pouco de vida a te dar. Esta que me sobra, me inunda e me transgride. Mas tudo pode esperar suspenso.
Como aqueles círculos etéreos que o moço cego faz com sabão em pó e entrega àquela criança. Criança. Meu amor esse isolamento é invencível só por hora. Há tempo.
E o tempo é apenas a convenção da pele, dos tecidos e de nossa condição de sermos perecíveis. Mas ainda há o que chamamos de alma... E ela me disse que precisa de um pouco de tempo.
2) O amor só é possível ao tempo
E com o perdão desse clichê tremendo e com as mãos idem. Só é possível se irmos
como à missa com a mãe, contrafeitos, mas purificados. O amor só é possível com o respeito a pequenas insinceridades. O amor só é possível para quem tem tolerância à constrição, músicas ruins, poetas caretas, olhares na rua, odores. O amor só é possível para quem fez mapa astral. O amor só é possível para quem tem hóspedes, dividindo o quarto do afeto
Ela amou tão suíte presidencial que fechou o hotel. Amou tão sem seguros
e sem dias e sem marcas de calendários sem mapas e sobe na janela a contemplar a ausência de perdas, a maior ausência do que não viu. O amor só é possível para quem tem outros vícios maiores, mas não liga não: amor só é possível quando tem calos.
3) O trânsito das horas
Somos a vitrine do tempo. Exibimos mais que a sua passagem. Somos vivas amostras do tempo em intervalos inteiros de orbitações matemáticas: ponteiros. Subtrair a vida parece a primeira idéia de tempo. Uma idéia errada. Porque o tempo sempre assoma. O tempo é feito de uma substância sutil. Partículas de olhares, pó de memória, cheiro de lavandas já usadas pelos avós, pais, nossos filhos. O tempo é a naftalina na gaveta da gente. O tempo é o tatuador de nossa memória. Sem o tempo não seríamos. Perder a noção das horas é viver. O trânsito das horas é ir e vir nas ruas-pessoas. Quem não usa relógio acha que tem mais tempo. O tempo começa onde termina a espera. Um tempo, pedimos quando queremos saudades. Há tempos, dizemos quando lembramos de quem não vemos. Dar um tempo é como dar um presente ao contrário. Dar um passado. Há tempo: aprendemos a lembrar principalmente quando parece que temos menos tempo. No fim. O fim vem em letreiros e tem música e as luzes todas acendem. Faça um pedido de casamento à vida: ame a passagem do tempo [nela]. Passadas a limpo pelo tempo as memórias são cidades, paisagens, aviões, vestidos de noiva, amigos rindo, praias das infâncias, doces da avó. O tempo é casado com o futuro e são filhos do passado e netos da felicidade. E pais da alegria.
posted by MARA CORADELLO 14:22
Com uma pontinha de vontade de que algo assim um dia me ocorra, uma invejinha dessas suaves_ se não fosse tão politicamente incorreto eu chamaria de "inveja branca" _e com muita admiração pelo projeto e curiosa em saber dos outros participantes, não contei, mas acho que não citaram dezesseis autores...
Vejamos:
Bonde das letras
Um grupo de 16 autores brasileiros, veteranos e novos, embarca para 16 cidades do mundo para escrever uma história de amor
Você é um escritor sem dinheiro, lutando pela sobrevivência. Tem, segundo suas próprias palavras, "apenas um dia de príncipe ao mês". Você emigrou dos quadrinhos para a literatura, vendeu os direitos para o cinema dos livros que publicou, mas ainda desenha uma última história de despedida.
Um dia, aparece um sujeito oferecendo um mês de estadia em Nova York, onde você nunca esteve, com todas as despesas pagas e a única obrigação de retornar com uma história de amor na cabeça, que depois será publicada por uma das maiores editoras do Brasil.
O escritor em questão existe, é Lourenço Mutarelli, um dos 16 autores brasileiros a caminho de 16 destinos diferentes no mundo, para viver uma experiência -qualquer experiência-, voltar e escrever um livro.
A coleção se chama Amores Expressos e foi idealizada por Rodrigo Teixeira, um jovem Quixote de pés bem plantados no chão. Teixeira já foi chamado de maluco na sua primeira experiência na área de cultura. Ele tinha 21 anos e quis publicar uma coleção de futebol.
No começo, ninguém quis saber. Bastava pensar na combinação improvável do assunto futebol com a cara de garoto do proponente para saber: não ia dar certo.
Pois Teixeira conseguiu um patrocinador tão apaixonado quanto ele ("Aos 45 do segundo tempo da minha vida", diz), chamou 13 autores expressivos e criou uma coleção de futebol, a Camisa Treze, que vendeu, no total, cerca de 350 mil livros.
Desde então, Teixeira tem inventado diversos projetos multimídia: "Um livro que pode virar um filme que pode virar um DVD que pode virar um programa de televisão", diz.
Assim nasceu a idéia da coleção Amores Expressos, que ele divide com o escritor João Paulo Cuenca, autor de um único romance, "Corpo Presente", e de uma novela entre as três do livro "Parati Para Mim", em que os autores passaram uma temporada na cidade para escrever uma pequena história.
Já os 16 afortunados viajantes da coleção da Companhia das Letras vão ganhar o mundo, a partir de abril, quando embarca a primeira leva.
O dinheiro para essa aventura -cerca de R$ 1,2 milhão, contabilizando todos os produtos finais- vem, em parte, da Lei Rouanet. Todos os autores recebem o mesmo valor pelos direitos autorais e pela cessão de direitos ao cinema.
"Estamos num momento fértil, em que a literatura brasileira vem encontrando novos nomes", diz o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras. Para ele, o projeto também vale como garimpo, por conta de seus escritores novos e novíssimos. Os títulos devem ser publicados ao longo de quatro anos pela editora.
Histórias de amor
"Quase todas as histórias do mundo são histórias de amor", diz Bernardo Carvalho, destino São Petersburgo, Rússia. A afirmação surpreende, vinda de um escritor cerebral, mas sinaliza a disposição de quase todos os autores.
"Dá para ambientar romances até na Lapônia, como no filme "Os Amantes do Círculo Polar'", conta Adriana Lisboa, destino: Paris.
Filme, aliás, é o formato embutido e desejado nessas histórias que serão gestadas no exterior. Não só isso: uma equipe de filmagem deve acompanhar os viajantes por três dias, retratando sua experiência para lançá-la em um DVD futuro.
Para o veterano Sérgio Sant'Anna, destino Praga, a viagem lembra um filme antigo: ele já esteve na cidade, com a família, em 1968, um pouco antes dos tanques soviéticos.
"Sinto Praga como um cenário perfeito e até com um mistério poético para uma história de amor. E há toda aquela magia de ser a cidade de Kafka. Sinto que a novela nascerá e fluirá a partir do que sentir lá."
Ao imaginar as estadias dos 16 escritores, Cuenca e Teixeira pensaram em criar "ruídos". O próprio Cuenca pretende se perder em Tóquio. Chico Mattoso, inédito em romance, encara o socialismo musical e decadente de Havana, uma festa para os sentidos. "É isso que faz você escrever e ter idéias. É tirar o seu chão", diz a colunista da Folha Cecilia Giannetti, destino Berlim.
posted by MARA CORADELLO 13:24
Gostei. Li no blog do Benvenutti, que agora é papai e ainda é o mesmo. Ele explica isso no paragráfo anterior a este, mas o que posto aqui combina mais comigo hoje:
"E tente explicar ao mundo que ao escritor é necessário tempo. O tempo do silêncio. O tempo da estrada vazia na madrugada veloz. O tempo do bar solitário e da cerveja gelada. O tempo do delírio observando o céu, o alto dos prédios, as folhas das árvores, o cachorro vadio que fuça no lixo. Tente explicar ao mundo que um escritor é sim um arrogante, um individualista, um doente, um parasita, um olhar perdido e desconexo no horizonte furtivo das palavras ditas da boca pra fora. Um mentiroso de grandes frases. Um ladrão do próprio tempo. Tente explicar ao mundo que o escritor deve se reservar o direito de externar em palavras as idéias e as histórias e as formas que se desenham em sua mente a todo instante e que não é possível controlá-las, apenas transformá-las em algo plausível, palpável e intelígivel se não para terceiros, para o prazer dele próprio, escritor, criador e deus de seu próprio mundo."
Marcelo Benvenutti
Link: Má Fama
posted by MARA CORADELLO 20:54
Eu tomo partido. E gostaria de reproduzir a mensagem de Luiz Ruffato, gostaria e reproduzo:
"Eu não me apropriei da idéia de Marcelino Freire ou Santiago Nazarian para organizar uma antologia sobre a questão da homossexualidade.
Eu roubei a idéia de
Gasparino Damatta, que em 1967 publicou a primeira antologia brasileira sobre o tema, intitulada Histórias do amor maldito (Rio de Janeiro: Record, 1967)
Eu roubei a idéia de
José Carlos Honório, que em 1995 organizou a antologia O amor com olhos de adeus (São Paulo: Transviatta, 1995)
Eu roubei a idéia da
coletânea Triunfo dos pêlos e outros contos GLS, uma coletânea de contos escolhidos em concurso patrocinado pela editora (São Paulo: Edições GLS, 2000)
Eu roubei a idéia de
Lucia Facco, que no ano passado (repito, no ano passado) lançou a antologia Lado B, histórias de mulheres (São Paulo: Edições GLS, 2006)
Todos esses livros, que me precederam na preocupação de provocar uma reflexão sobre o tema, estão devidamente citados à página 14 do meu prefácio à coletânea 'Entre nós', publicada no Rio de Janeiro, pela editora Língua Geral".
posted by MARA CORADELLO 21:26
Crônica publicada ontem em A Gazeta:
Manias, pequenas obsessões e alegorias da vida
Mara Coradello
Se despirmos uma pessoa de suas manias e pequenas obsessões isso contribuirá para que reste apenas um ser sem forma própria, amorfo? Talvez. Quando criança eu tinha aquela mania, uma maniazinha admito quase envergonhada, de não pisar nos entremeios da calçada. Sei que isso lembra o personagem de Jack Nicholson em "Melhor Impossível", certamente um portador de Transtorno Obsessivo Compulsivo o chamado TOC, mas eu vi o filme depois de criança. E eu tenho apenas toquinho, como dizia minha querida amiga Janaína ao me ver limpando compulsivamente o balcão de mármore na minha pequena cozinha americana: "Mara você tem toquinho com esta mesa".
Comunico que na mesa agora tem uma televisão_ que ainda não tenho um rack, esse objeto que sem dúvida inaugura o advento da civilidade entre os homens, um suporte para eletrônicos de entretenimento, na verdade quase um altar_ e algumas contas, e um montinho de papel e ainda umas canetas. Venci este "toquinho", mas estou preocupada em não perceber algum outro. Tenho tido essa mania de me observar para descobrir aonde o toquinho sufocado pela mesa de mármore vai parar.
Porque de alguma forma as manias perderam o caráter inocente, elas agora podem ser o indício do terrível Transtorno Obsessivo Compulsivo.
E então aquela criança que contava árvores da janela do carro dos pais pode ser um adulto com TOC, ou não, vai saber. Mas Woody Allen parece um maníaco e é o que é: gênio. Então invista na boa educação do seu filho e pare com este TOC de achar que ele vai ter isso ou aquilo, falou?
De qualquer forma, pesquisei sobre manias para quem sabe identificar a minha, e me surpreendi com um verbete na Wikipédia, aliás, pesquisar coisas compulsivamente pode ser considerado uma mania? Tá. Deixa pra lá. O que me deu satisfação foi que descobri palavras lindas. Doromania? É a mania de dar presentes. Tenho um amigo que tem essa, parece bom no início, mas eu tenho a noção cristã de retribuir, herança dos Reis Magos e tal, ou mera educação, então o amigo que dá muitos presentes sai caro, e o pior que ele tem tudo, então tenho que ser criativa e ainda não consegui retribuir uns oito presentes. Tenho anotado numa lista.
Doxomania? Paixão em adquirir glórias. Não conheço ninguém com esta, cartas a esta coluna caso lembrem, mas certamente deve ser alguém famoso, ou a glória é uma noção pessoal?
Drapetomania: mania de andar sem destino. Confesso que já tive vontade de ter essa, sair por aí pelo mundo, só empaco quando lembro do cheiro que os andarilhos espalham por este mesmo mundo.
Tem a calomania, mania de imaginar-se possuidor de extrema beleza pessoal. Vendo alguns fotologs e álbuns no orkut imagino que essa é mais comum do que pensamos e por fim a ergasiomania: desejo patológico de trabalhar permanentemente e que a Wikipédia diz que também é "a impaciência indevida de sofrer intervenção cirúrgica. Mesmo que ergomania". Não entendi essa...Então a pessoa acha que se sofrer cirurgia vai parar de trabalhar e por isso ela não tem paciência? Bem, deve ser isso. De qualquer forma estou com esta mania de tentar encontrar minha mania. Não tem nada sobre escrever, nem sobre usar filtro solar na frente do computador por causa da luz que emana do monitor, nem sobre... Bem... Para algumas manias é melhor que a gente as guarde em segredo. Qual é a sua?
posted by MARA CORADELLO 14:31
Crônica publicada ontem no jornal A Gazeta.
O Homem que Sabe Mentir
Mara Coradello
Ele esteve aqui em casa dia desses. E elogiou meu café e meu cabelo. E ainda me falou que eu tenho um ótimo gosto ao analisar a escolha do sofá e dos quadros que ainda não pendurei na parede. Ele prometeu que volta, se eu o convidar, para tal tarefa. O homem que sabe mentir me deixaria apaixonada se quisesse, mas não. Somente porque sabe mentir ele assume que mente, e eu não caio neste seu truque de espelhos. Exatamente como uma foto digital no melhor ângulo tirada pelo próprio fotografado. O surpreendente é que eu gosto dele. Talvez porque nestes tempos em que queremos tanto a verdade e até assistimos pessoas em cativeiros em suas supostas sinceridades, precisamos de alguma mentira de gentileza.
Como quando aquela amiga pergunta se ela ficou bem com o novo tom de cabelo, neste caso você pode sutilmente dizer que não, que preferia a anterior, aposto que é fácil voltar a tal cor. Porém se a mudança em questão for silicone na boca, que acaba por virar um biquinho sexy vinte e quatro horas por dia, então, meu amigo, saque de seu bolso uma mentirinha que chamavam antigamente de mentiras brancas. E como estamos em novos tempos, aboliremos as possíveis alusões raciais e chamaremos essas mentiras de conveniência de "mentiras floridas".
Uma mentira que usa perfume, que disfarça seu odor com um floral amadeirado com notas de tangerina e de lírio.
Exatamente quando perguntamos se alguém está bem. Esperamos mentiras floridas e não o aviso de que desde o ano passado está com a conta no vermelho (outra designação de cor. Veja só como somos bastante sinestésicos).
O homem que sabe mentir faz vista grossa para as pequenas imperfeições. E ele ainda é do tipo que sabe que numa festa, pista cheia e som acima do saudável, devemos falar somente frases curtas. Nunca entabular longos assuntos que teriam de ser gritados para assim mesmo, não completamente ouvidos. Ele também nunca combina sapatos caramelo com cintos caramelo e ainda tem outras particularidades: leva escova de dentes e pasta na bolsa, finge que acha suas amigas apenas inteligentes, preocupa-se ao extremo com sua segurança e só por isso insinua que de vez em quando deveria pernoitar em sua casa, para protegê-la. O homem que sabe mentir não é aficionado por futebol a ponto de encher a casa de amigos e te fazer sentir uma promotora de alguma marca de cerveja, aquela mesma que estava em promoção.
Não que ele não goste de futebol, ou que não ache suas amigas gostosas: ele mente.
O homem que sabe mentir não se aproxima de você numa festa com meias palavras e até pode usar a frase "você vem sempre aqui", mas com um sorriso cínico nos lábios, quase que admitindo a falta de assunto. E ele ainda instala ar-condicionado, ou te acompanha na dura tarefa de procurar um técnico para tal façanha. Ele ainda entende de caneletas e de como misteriosamente os fios entram lá, perfeitamente conduzidos por seus canutilhos.
Na inglória batalha entre ser masculino e não machista; entre ser homem e não um exemplar levemente atualizado do Jece Valadão (que Deus o tenha!), o homem que sabe mentir aprendeu a... Mentir. Ele, de ouvido, percebe na hora onde tem que mostrar sua macheza, onde pode dar-se ao luxo de ocultá-la. Ele, por sinal, até gosta de seus amigos gays, mas também os admira por sua inteligência somente. E mais do que ignorar nossos quilos a mais, trata logo de encorpar também, além de acreditar piamente quando você diz que uma repentina elevação abdominal masculina, conhecida popularmente como barriga, é sinal de sossego e de um narcisismo sob controle. Porque o homem que sabe mentir principalmente acredita. Acredita que uma mulher pode ser um grande aprendizado sobre todas as outras mulheres. E, finalmente, um homem que sabe mentir, sabe. Sabe que o amor não é uma doença, nem uma sucessão de dores e flagelos e muito menos a impossibilidade de ser livre. Sabe que o amor é algo calmo e por vezes visceral, que apenas transita entre amizade e paixão. O homem que sabe mentir tem curiosidade e paciência, mas graças a Deus ele também tem pressa. E existe.
posted by MARA CORADELLO 16:11
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher publico um poema de uma autora silenciada, de uma história que descobri por meio de Aline Yasmin, uma irmã em armas, no site da Marcia Tiburí, nesta página:
http://www.marciatiburi.com.br/helena.htm
...........................................................
NA MINHA CASA DE BRANCOS
Helena Schopenhauer Borges
Na minha casa de brancos
De portas e louças desbotadas
Eu era a negra entre as ovelhinhas parvas
Eu era a negra, a malefícia,
A enferma das sombras
A de dentes reluzindo
o que me era unicamente alvo.
Deixavam-me à porta comendo laranjas
De pés sujos
Contorno marrom nas unhas
Cabelos abandonados
Curvas na neblina ácida em meus olhos
De coxa e diaba.
Minha mãe avisava-me das bruxas
Que trançavam por debaixo em nós
As maçarocas de anteontem,
Cachopas de desdém sublime
Mostrava-me a minha mãe
A minha própria mãe
que me tinha forjado na barriga
Passos rastejantes do outro lado da rua
eu, um caroço de angústias malditas
parido daquele ventre onde nada cabia
E eu via sua roupa escura de pobre e me sentia
Naquela casa de espelhos
Um corpo morto,
Vestígio e peso
Vendo a minha mãe dentro da casa
A me dizer com seus fios dourados a sol
Uma lâmina sem corte
Uma pétala de flor que não viu água
Atada a um cenário de nada e pó
Estridências e rangidos
Porcelana, pano e vidro
Botas brancas sobre o chão pardo
E, em meu rosto, a confusão das mortes vivas.
Tudo era cinza
De respirar o ar negro em meu espírito
na cor da cor da minha pele
vendo sombras
fingindo lentidão nos pensamentos
...................................................................................................................
A única luz que tive foi a de arranjar um espelho
Em que o tempo passado fosse vertido das xícaras
da porcelana
Desejei que ali fossem afogados todos
Os que me vinham passar o cabelo a ferro em brasa
que tinham sucumbido ao corpo de múmia em anos.
Eu corria para o colo das múmias
Esperando a proteção das esferas
O céu
Arranhava com unhas roídas de criança triste
O muro
Da parede cheirava a frio
malévolo como uma ampulheta enrijecida
Ciscos nos meus olhos de noite escura
Lá dentro, a alma costurada com linha amarela
Revirava-se forjando venenos
Eu era a negra entre as flores desmentidas
Era a negra entre as de pupilas verdes
E as verdades dos outros
Tinham-me como abismo
Eu era a negra
Que sou agora, com a cor atrapalhada
De mulata
De minha avó Maria Mulata,
nascida em 1870
única pessoa que tenho por família.
A que vivia longe, já morta há tempos
Deixou-me de herança a sua visão
Terrível das coisas
Na mata,
O negrinho sobre os galhos ameaçava
O sanguanel
O sanguanel era o meu pavor
Igual a mim
Menino e preto
Meu avô que me amava
no fundo de seus olhos reluzentes,
Azuis das tripas transparentes
Ensinou-me um trocadilho:
O que era o seu olho
era a minha pele
e o sangue de minhas irmãs
era breu para mim.
Olhos e cabelos redivivos
Implantados no meu vestido de chita
A pele nascida sem castidade
Dobrada entre as palmas
A bruxa preta para espantar maus espíritos
Eu mesma que me espantava
Curtida contra as paredes disfarçadas
Couro, sol em demasia,
Azul, cinzenta, cortiça,
Era a minha tez
eu era a negra entre os fios dourados
e os panos vastos das cortinas limpas
quem me teria lavado
para poder entrar com os pés na varanda?
Depois eu matei a todos,
Matei-os
Com o formicida dos pensamentos
É só lançar sobre os diabos
Que eles pulam e soçobram
Debaixo desses tapetes de histórias
Esmago-os sem dó todos os dias
Ouço os gritos dos debilitados se afogando.
posted by MARA CORADELLO 17:54
Caro comentador anônimo.
A partir de agora caso queira me difamar você ainda tem meu fotolog, claro, tem ainda as mesas de bares e os telefones, mas não tem este blog.
Parabéns por ter conseguido algumas linhas aqui, quase ninguém consegue, sou extremamente seletiva com o que escrevo e com o que beijo, o que pode explicar seu furor.
Espero qualquer outra interferência sua, mais franca dessa vez. Sei que é esperar demais de alguém que assina nomes variados, mas nunca o próprio, sei que é esperar demais de você, mas eu sou extremamente repleta de esperanças. E não desisto nunca.
Caso queria então entabular conversações sobre minha sexualidade, minha altura, beleza ou feíúra e tantos outros assuntos que parecem tanto te incitar, a ponto de te fazer entrar em máquinas com IP`s diferentes para tecê-los, envie seu e-mail para maracoradello@gmail.com
De qualquer forma, agradeço a chance de criar polêmica, se você fosse mais inteligente, saberia que quem precisa de leitores, também precisa, senão de polêmica, ao menos de comoção. E isso você conseguiu causar ao meu redor: bingo! Obrigada e por incrível que pareça: volte sempre, a casa é sua. Apenas terá de sujá-la de outra maneira.
Atenciosamente,
A autora dos textos deste blog, salvo os entre aspas.
posted by MARA CORADELLO 15:10
Crônica em forma de abraço
Mara Coradello
Dedicada a Jean R.
Estávamos na manhã sonolenta de uma terça de carnaval. A casa de campo por si só mereceria uma crônica inteira - construída na década de setenta, quando mal se ouvia falar em proteção ambiental - toda de madeiras nobres, e com objetos típicos daquela época. Acolhedora, seria a palavra. E já tenho um quarto predileto lá, onde durmo lautamente, numa cama que não tem dossel, mas é como se. Temperatura agradável e escuridão completa, como devem ser os quartos de dormir. Eis que um celular toca seu absurdo ringtone feliz. Eu, com meu sono atento, de canceriana sempre a postos, ouvi o telefone e, sem pesar regras de bom tom quando uma casa inteira dorme, levei o aparelhinho ao dono, também canceriano, que não dormia, via um filme.
Volto para o escuro do quarto e ouço a voz do canceriano querido me chamar, havia um tom de urgência. Ele gritou em voz baixa, e sempre que percebo alguém gritando em quase sussurro, preparo-me para o pior: seu ex-amor havia partido de forma brusca, no alado do trânsito que nos leva e nos traz, precipitando-se assim, por vezes. Provavelmente, a partir desta percepção alarmista do trânsito não dirijo: como é possível que uma série de seres humanos dentro de bólidos pesados com força para matar, organizados por setas, marcações no chão, apitos e sinais, saíam ilesos?
Acho realmente incrível. Meu amigo chorava ladeado pelas janelas, um dia verde já se ia alto, as montanhas todas pareciam compactuar com o seu choque, que virou pesar, que se tornou letargia e silêncio. E eu (que devo falar muito mais que a média de dez mil palavras por dia atribuídas às mulheres), me calei e fiz a única coisa que se faz numa hora dessas: abracei o amigo. E ainda tive a capacidade de lembrar de um dos meus filmes favoritos deste ano, possivelmente, de toda a minha vida: "Little Miss Sunshine".
O filme, a morte do jovem amor de meu amigo (ex-amor quando morre torna-se quase amor de novo) me fazem pensar: sabemos todos que vamos morrer, evitamos o assunto, nós os fumantes inveterados, os praticantes do esporte radical que é dirigir, os comedores de betacaroteno, os bebedores de flavonóides. Evitamos todos pensar na senhora de preto. Eu mesma achei por bem, muitas vezes, não sofrer por antecipação, não criar alucinações com o "e se eu morresse amanhã?", terei feito tudo o que tinha de fazer? Nem concluí meu romance, não vivi um grande amor que me levasse ao outro esporte radical: morar junto. Não conheço a Patagônia, nem pedalei em Amsterdã, não comi no Nobu, e nem isso, nem aquele, quanta coisa para fazer, sem falar em arrumar meu armário e mandar as roupas à lavanderia. E nesta sentença caberiam risos. Sim, numa crônica que versa sobre a morte cabem sorrisos, como na vida de quem fica tem de caber alegria, prazeres, mesmo que um chocolate novo de edição limitada que custa pouco mais de dois reais e não exige visto. Vamos chorar nossos mortos na hora de sua partida e depois também, que somos de matéria de afago. Porém, sempre que pudermos nos refiramos a eles no presente. Principalmente, vamos tratar de lembrar de seus momentos agradáveis e leves. Sempre hão de existir. Quando for um ex-amor, então, até as brigas devem parecer engraçadas, depois que ele se foi definitivamente. Vamos lembrar de seguir menos regras, comer carboidratos à noite, confessar que amamos, surtar de madrugada e telefonar para o nosso bem-querer, exigir menos horas extras, ver o sol não somente através de paredes de vidro, como naquela propaganda de carro.
Os trechos do texto que meu amigo escreveu sobre o ex-namorado que partiu trazem justamente esta esperança: de que valeu a pena, mesmo que tenha sido antes da hora. Não há mágoa nem rancor nas palavras dele, nem desconsolo. Há uma infinita tristeza, o que me faz pensar no clichê: sem as decepções, sem as infinitas frustrações como saberíamos gozar das imensas maravilhas do viver? Sem conhecer um vinho avinagrado como podemos tomar um bom vinho, por exemplo, um Memórias. Ao amigo dedico este escrito em forma de abraço e a você que me lê desejo (sei que um pouco fúnebre, perdoe-me por isso) que paire em sua coroa de flores a frase que ornamentava a de um outro amigo meu, dos tempos de faculdade, que se foi ano passado, em meio aos crisântemos, flores do campo, alecrins e lágrimas líamos: "ele viveu a vida toda".
posted by MARA CORADELLO 19:57