Crônica de ontem. Nem comprei o jornal. Alguém guarda um exemplar para mim?
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Nunca mais voltar
Mara Coradello
¿inteiro é o que tem começo, meio e fim¿.
E o que falar das pessoas que um dia saíram para comprar cigarros e nunca mais voltaram? Algumas nem eram fumantes. Em certos dias eu fantasio que sou uma destas pessoas. Maria, por exemplo, é. Além de ser cabeleireira, especializada em escova progressiva, calma, plácida e feliz. Ao menos aparentemente. Um dia sem avisar sumiu. Foi embora. Para Uberlândia com o novo namorado. Deixou marido e três filhos e quatro meses depois telefonou contando calmamente que resolveu mudar de vida.
Gente que se arrisca, que sai debaixo das asas de sua segurança, que diz a verdade a si mesma, eis um de meus tipos favoritos de personagens. Ao mesmo tempo em que eu tenho certa vontade de ser do tipo pacato, com o qual sempre me envolvo, aqueles espécimes que chamo de pessoas calmantes, dóceis e apaziguadoras.
As pessoas que um dia dobram a esquina e constituem uma nova família servem para dar ao mundo este caráter movediço. Neste exato momento um pai de duas meninas abandona tudo e se muda para Recife, para morar com a morena que ele deu carona em seu caminhão. Para ser pai de um filho que essa mesma morena, Gilda, teve com Arnaldo, que foi embora com José, quando descobriu que era deles, e dele em especial, que gostava mais.
Mas não recrimino quem assim o faz. Porque as pessoas vão embora às vezes permanecendo justamente as nossas frentes. Tudo que imaginávamos ser verdade límpida e adorável, de repente some, deixando um estranho com quem escolheremos compactuar ou romper bruscamente e irmos, nós mesmos, comprar cigarros, mesmo que não fumemos.
Eu gostaria de partir hoje, uma mochila nas costas e colher azeitonas numa aldeia portuguesa para combinar com minha intensa tristeza. Lavar navios num istmo da Grécia. O dia arde cheio de novos desafetos e a dura constatação de que não conheço mais as pessoas, de que quase não gosto mais delas de modo genérico, e de que sei que isso é uma espécie de loucura que tende a me fazer mais solitária e amarga. Não pretendo explicar a mim e nem terminar a história de Maria cabeleireira especialista em escova progressiva, que nesta hora pode estar feliz em Uberlândia. Não assumirei o tom auto-ajuda que percorreu minhas crônicas (se é que as posso chamá-las assim) anteriores. Hoje a tristeza fez casa nos meus olhos e é com eles que enxergo o branco do monitor que pontuo de palavras.
Deixo um recado para quem quiser ler: nunca esperei algo maior que a docilidade da verdadeira amizade na convivência entre seres da mesma espécie, não ofereço mentiras edulcoradas em ironias, nem uma disputa para medir quem diz as maiores verdades um ao outro. E (oh!) não sou perfeita. Da minha parte tento ser menos ácida e tenho que confessar que posso ter quinas sim, posso ser severa. Porém sinto o profundo alívio de saber que não verei mais ao seu lado aquela pessoa que você descreveu como eu.
Sigo não falando com novas pessoas a cada dia, os eventos tornam-se insustentáveis, talvez por isso a TV a cabo e os livros são mais adoráveis. Porque tantas vezes percebemos que o melhor de nós é não estarmos juntos com alguns humanos, e pronto. Então vamos partir um do outro como Maria, Arnaldo e o caminhoneiro sem nome partiram de suas antigas vidas. Alguém dúvida que cada pessoa é uma vida inteira? Esta é uma crônica expiatória. E quero apenas desejar que morarmos numa cidade-ilha não nos torne amigos por geografia. Eu? Estou constantemente procurando a leveza e me defendo de batidas sim. Se me vir novamente nas ruas vire o rosto para o outro lado. Eu parti. Não fui comprar cigarros para você. Fui buscar minutos da bruma do silêncio e da amizade sincera. É que prefiro a vida que não é apenas um fast-food de prazeres sensoriais imediatos e vazios. Não olho para o céu procurando somente confetes. Mas sim o azul de poder partir por ele.
maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 13:59
"Amo a língua portuguesa [...]. Eu até queria não ter aprendido outras línguas só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida."
Clarice Lispector
Escritora brasileira
(1920 - 1977)
posted by MARA CORADELLO 10:21
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Relato de um feriado santo
Mara Coradello
Quando tudo pára bruscamente e eu consigo ouvir até os sons abafados de carros lá fora como um assobio da inspiração. O asfalto reluz nas pessoas depois do verde alto das árvores chegar a minha retina e lagartas parecem felpudas, picolés parecem tóxicos alucinantes só porque gelam minha garganta e cordas vocais me surpreendem com seu apergaminhado. Minha cara mais lívida que o dia de ontem e pelas frestas desses sentimentos eu percebo que o hoje é enorme, e é quinta, sábado, segunda, terça. A semana inteira é um poema imenso que me coroa as horas de espera de algo fulgurante que chega a ter mais adjetivos que o permitido pela alta literatura. Então percorro as ruas de meu bairro, ele que tem "Penha" em sua grafia, e lembro do dia em que eu me vi na frente do Convento, na primeira vez em que eu subi suas escadas, ainda não havia a Terceira Ponte, nem aquela construção estranha. Como pode um cinema tomar parte da vista?
Mas voltemos ao Convento: quando o vi novamente neste feriado, percebi que ele era o personagem que eu buscara. Tijolos, histórias e pedaços da montanha mágica e jardins de fé. Nesse feriado que passou não o visitei, o vi de relance na TV. Tranquei-me em casa, molhando minha alma com um regador cheio de poemas, um livro de Paul Auster e a descoberta de um Fernado Tatagiba: escritor de timbre solitário, por vezes alucinado, do qual tenho somente um livro emprestado. Não vi o filme que deveria ter visto, mas abracei meu velho pai e almocei a mesa com a família, numa espécie de oração. Senti medo de viajar, como quase todos nestes dias onde nos ônibus ocorrem infelicidades que sequer são indenizadas. Onde aviões nunca têm passagens e sempre têm esperas de preços altos.
Prometi contar o final da saga de Tarsila, a gata, que receberia um amigo felino, egresso de uma história de amor desmanchado. Porém não continuo, escrevo somente este agora, com nuvens pesadas que parecem que vão chover e penso com a amiga escritora, que cada qual sabe a necessidade do que precisa, e se não sabe, talvez nem precise.
Canso-me de ouvir conselhos e me rebelo e volto para o sol dormente numa segunda-feira mágica que começa inusitada, um dia inteiro para cada um de nós. Entristeço de pensar naqueles que têm trabalho, imagino como seria uma cidade realmente deserta de ofícios e pessoas, como certas vilas espanholas na hora da sesta.
Ainda bem que estamos na quarta, antecedemos hoje uma quinta, em breve será domingo e eu quase enchi essa crônica de vento, poupei resmungos, descobri como é andar nas ruas com músicas tão estranhas que você sequer as esperaria de mim: Bagdad Cafe_a trilha do filme; Do make say think; Urubu do Tom Jobim, e várias do Paolo Conte, que parece um italiano misturado com Tom Waits; além da passional trilha de "O Último Tango em Paris". E ainda há a esperança a permear meus pedidos. Eu sempre peço: ao vento, ao Convento, às músicas que ouço. Porque quando pararmos de pedir, internamente, paramos de crer. E mais do nunca me resta crer.
maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 09:00
Crônica, despretensiosa como sempre, de ontem em A Gazeta.
Passeia por meus pensamentos uma gata*
Mara Coradello
Quando não pude ser apresentada à Tarsila achei que ela fosse uma ilusão. Explico-me: ela nunca surgia na casa onde mora. Fui introduzida aos seus aposentos e pude somente ver seus utensílios e saber as suas manias. É que Tarsila é uma gata, mas ainda não era naqueles dias. Poderia dizer que ela era... Farpada.
O fato é que Tarsila era um mistério maior do que os gatos costumam ser.
A história dela envolve um lar onde nasceu com companheiros de novelos: os seus irmãos gatos. De pura sorte, naqueles tempos, ela tinha todo um quintal. Porém seu primeiro dono apaixonou-se e a namorada, que tem alergia a felinos, engravidou. Tarsila foi presenteada então, sob esse argumento e com a sedução de ser um filhote pequenino e dócil. Meu amigo a foi buscar e ela já se chamava Tarsila, por coincidência ou o que se pode chamar de. Ela tem ainda este nome de artista plástica, calcado em Tarsila do Amaral, e este meu querido amigo sempre teve animais com nomes de personalidades da arte. Se é que alguém ¿tem¿ animais. Tarsila logo ficou sabendo-se dona da casa, e costuma dizer este meu amigo N.F que ela trata a todos como intrusos. Eu o visitava algumas vezes por semana, porque escrevia um texto para o livro dele. E a Tarsila nunca aparecia. Seu vasilhame de água com ilustrações de Hercovicth, e sua comida, a caixinha de areia, tudo indicava que havia um gato por ali, mas aonde?
Nem cheiro residual ela deixava e cheguei a suspeitar que era uma gata invisível e que meu amigo a cultivava apenas em seus pensamentos. Como na infância algumas crianças criam seus amigos. Tarsila seguiu impassível a meus chamados, ou melhor, invisível, até que um dia eu a vi de relance, quase um vultinho a me surpreender, e ao longo da natural conquista da amizade de seu dono, ela também se mostrava, à medida que nossos papos passaram do tatear inicial, Tarsila surgia mais palpável, em alguns momentos até deixava-se ficar na sala.
Apenas oito meses após minha primeira visita, no dia em que eu cuidei do dono dela, que estava com uma pequena indisposição_ febre típica de gripe que se aproxima_ somente após este dia, Tarsila deixou-se tocar por mim, e pediu carinho. Seu pêlo há muito não tosado, pela recusa dela de ser manuseada por qualquer um e seu semblante ainda em sobressalto, indicavam que a natureza de gata farpada ainda espiava esta Tarsila de agora: dócil de fato e ainda assim ressabiada.
Valorizei cada carinho em Tarsila como uma amizade alcançada a conta-gotas. Apenas me lembrei que não prescindimos nunca da sedução do outro, que nossa confiança nunca é gratuita e entregue a qualquer um. Em parte talvez por temer ser novamente abandonada, Tarsila ficou ensimesmada, a lamber suas próprias patas e a brigar por seu isolamento, comia, bebia, não tinha exatamente uma depressão, mas tinha sua própria postura sem obedecer a nossos comandos, natural dos gatos, mas ainda com certo desdém por nossa natureza humana, parecia dizer: quem você pensa que é?
O fato é que semana que vem, por causa de outra história de amor, Cândido Portinari vai chegar para habitar o lar de N.F, ou melhor, a casa de Tarsila. Aguardem as cenas do próximo capítulo. E adianto-me: ela é uma gata persa e ele um siamês, os siameses são mais recentes na escala da evolução dos gatos. Achará Tarsila em Cândido, Dido para os íntimos, um amigo? Voltará a se esconder em algum armário e fazer aquele grunhido típico dela: fu!_ ao dizer: quem é este fedelho da escala evolutiva de meus nobres antepassados? Ela parece exclamar este "fu!" entre dentes, um esgar de absoluta convicção, quando está absolutamente aborrecida. Sei que há fatos mais graves neste mundo, aquecimento global e mesmo bichinhos mais famosos, como Knut, o urso que escapou do chamado radicalismo dos defensores da natureza. Só que me atenho à Tarsila e suas aventuras neste novelo de uma vida animal que poderia ser um pouco a minha ou a sua. Ei! Esqueceu que também somos animais?
*Título inspirado em estrofe do poema "O Gato", de Charles Baudelaire.
posted by MARA CORADELLO 16:54