O caderno branco de Mora Mey

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Sábado, Maio 26, 2007

 
A de quarta.


Fale baixo nas manhãs



Mara Coradello


Eu não existo de manhã. Sou o espectro suave do que andou por aí, pelos sonhos. Não entendo quase nada de sono, sou uma insone famosa entre meus amigos mais próximos. Mas o amanhecer eu respeito como a um novo nascimento. Se um dia inteiro é uma vida, de manhã sou um bebê. Quem me dera se todos falassem baixo perto de mim, usassem cores suaves, e não estranhassem meu olhar vago.


Para as pessoas que fumam cigarros pela manhã eu peço que respirem. Para as que riem alto, eu conto que daqui a pouco é meio dia, e que riremos juntos.


Nesta semana li que o presidente teve uma insônia e reclamou da programação da TV a cabo, por não conseguir achar nenhum filme que o agradasse. O que mais gostei da matéria foi a lisonjeira _ao menos para nós insones_ observação da jornalista que a escreveu: ¿o insone é um exigente, senão estaria dormindo¿.


Acho que há diversos tipos de insones, um deles é aquele que tem medo do devaneio imediatamente anterior ao sono, quando grandes idéias são concebidas, quando descobrimos verdades até então ocultas. Quem pode afirmar com certeza aonde vamos quando dormimos? Há os que sofrem de medo da entrega, segundo minha própria e pessoal percepção e conforme afirmado por um mestre yogue: pessoas que não conseguem conciliar o sono têm vontade de ter mais controle sobre suas vidas. Eu tenho. Inclusive vontade de ter uma espécie de controle digital de mim mesma, que me desligue às 22 horas da noite, para que eu possa acordar às sete da manhã e ver a luz mais clara do dia, somente possível de ser descrita com exatidão por um Robert Frost, nunca por essa escriba para sempre iniciante, que vai enrolar o peixe de amanhã: eu.


O fato de ser insone também tem um grande peso em minhas ações, ou poderia dizer que não ter um sono pesado me faz medir, em gramas e miligramas, tudo o que eu faço e falo ao longo do dia. Imaginem se eu fosse um dos envolvidos no último escândalo, o do Ministério das Minas e Energia? Mesmo que eu fosse uma assessora distante, que apenas cumpre ordens e meneia a cabeça, jamais voltaria a dormir. Ou se eu estivesse no lugar da diretora do Procon de nosso Estado, aquela mesma que queria ¿sair bem na foto¿ quando foi presa. Eu não sairia, porque minhas olheiras e meus cansaços de insone anuviariam para sempre o meu semblante. É, tem gente que não comete delitos por medo de nunca mais dormir.



Eu também tenho um insone favorito, que por coincidência integra o elenco de um dos filmes que mais gosto, Edward Norton em Clube da Luta. O casal formado por Edward e Helena Bonham Carter como Marla Singer (outra de minhas personagens prediletas) assistindo todo aquele espetáculo ao som de Pixies ¿Where is my mind¿ é simplesmente sublime, só não descrevo detalhadamente porque seria um spoiler. O que um spoiler? Detalhes que entregariam um enredo, exatamente o tipo de pensamento que atormenta um insone. Desvendar spoilers sobre sua vida na vidência cinza da insônia é desejo de muitos dos que não conseguem dormir de jeito nenhum.

E para terminar de falar de insônia tenho, naturalmente, que contar de sono. E não vou falar de Morfeu e nem de Sandman de Neil Gaiman, outra referência popsagrada, mas sim de Antonio Maria e sua crônica sobre o sono, uma das mais primorosas coisas que já li: ¿A pessoa que dorme está inteiramente só. Quando o homem dorme, o seu rosto se desmarca de todas as tramas e de todos os desgostos. Nada enternece mais uma mulher que o rosto do amante, dormindo. Ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele lhe vinha dizendo ou dando a entender. É quando a gente se parece menos com os mortos... é quando se está dormindo¿.









posted by MARA CORADELLO 01:06


Quinta-feira, Maio 17, 2007

 
De meu encontro com Paul Auster e Siri Hustvetd

Ou de quando olhei a eternidade




Mara Coradello


A primeira vez em que tive uma inveja passível de ser confessada sem ferir minha dignidade após a declaração, foi em 2004, na Festa de Literatura Internacional de Paraty. A cidade histórica é cercada de um mar arroxeado, de pedaços da Mata Atlântica e recebe nas chamadas FLIP´s, desde 2003, grandes personalidades do mundo literário e o homenageado de então era, nada menos que Guimarães Rosa.


Fui com um grupo de amigos e me hospedei em um lugar simples e bom. Assisti o máximo de palestras, madrugava nos bares onde sorvia literatura e cachacinhas misturadas a amigos novos escritores, que eu só conhecera antes de diários virtuais e alguns e-mails, livros e telefonemas fortuitos.


Pela manhã cedo, eram as maçãs santo remédio para ressaca, e a caminho da tenda do evento propriamente dito, tomava sorvete de coco no na praça central.

Num desses dias, talvez sensibilizada pela grande atividade intelectual entre copos e citações literárias e entre um amor mal resolvido que se hospedara próximo a mim, vi algo que jamais irei esquecer: Paul Auster, em pessoa, em sua altura que parece um metro e noventa, com seu rosto de moreno singular, com olheiras e fleuma à prova de qualquer dúvida, o escritor pelo qual nutri certo preconceito, por ser tão best seller e por ter se metido com a mesma desenvoltura pop no mundo do cinema. Apoiada por ele, ao mesmo tempo em que o apoiava, estava sua mulher, Siri Hustvetd, uma norueguesa que foi para os Estados Unidos da América escrever e lançava naquela FLIP o livro "O que eu amava", romance que me tirou muitas noites de sono. Eram os dois quase da mesma altura. Ambos se apoiavam um no outro. Era a tentativa de equilibrarem-se nas pedras pontiagudas de Paraty. Ruas irregulares que ao nos colocar para caminhar devagar e com olhos voltados para o chão, nos dimensionam novamente humildes e humanos. Os dois conseguiam, pelo porte e por terem um ao outro até olhar para frente, com natural altivez. Eu já sabia que eles são casados desde 1982, que se ajudam mutuamente com a escrita, apesar do único roteiro escrito a quatro mãos não ter agradado a ambos, que pediram para tirar seus nomes dos créditos.


As referências são muito parecidas e os dois começaram a carreira literária escrevendo poesia. Porém, a força maior do que pude sentir ao vê-los, não repousa apenas em conterem a eternidade, mas em seu amor de compreensão mútua, amor de cumplicidade, e perceptível para mim, ou ao menos imaginado por mim.



Eles eram belos, são imortais, altos e magros, dois dos melhores escritores que existem, sem contarmos com a opinião de algumas críticas. Mas o que me deixou estarrecida, foi um pensamento que me corroeu e se fincou em minha mais secreta fantasia: se não for assim, não é amor e eu não quero. Se não for esse caminhar de suportar e levar, sem que se sobrecarreguem um do outro, extremamente calmos em meio à multidão e tão alheios, felizes, certamente, e prontos, como um ideal. Eis que descobri que idealizo sim o amor, mas não sei se quero deixar de.

posted by MARA CORADELLO 10:57


Quarta-feira, Maio 09, 2007

 


Sósingular


Mara Coradello


Às vezes podemos ser salvos pelas bobices da vida.
Eu mesma, um dia desses, quem diria, fui socorrida pela seção de auto-ajuda. Logo eu: uma leitora de Kafka aos doze anos, que achou Crime e Castigo uma grande aventura aos dezessete, e que era alheia a novelas de TV para ficar trancada em meu quarto lendo A Montanha Mágica, por exemplo. Esta mesma "eu" parou numa dessas livrarias de nossa querida Vitórinha e ao perguntar por quinze livros, ou mais, e obter negativas sobre todos os títulos se deparou com um volume fininho, colorido e editorado quase em forma de fanzine, um livro para solteiros ou como diz o subtítulo: Manifesto para Românticos Irredutíveis.

Por isso é bom dizer que a palavra que dá título a esta coluna, não está escrita de forma errada, é assim mesmo sem hífen, como propõe Sasha Cagen, autora do livro Sósingular ou "Quirkyalone" que defende que devemos ignorar a conspiração da sociedade para que sejamos parte integrante de um casal. Algo como aquelas tias que perguntam se você está namorando, ou a simples inexistência de quartos "singles" em pousadas e hotéis, ou suas amigas perguntando por este ou aquele quase-relacionamento que nem você se lembra mais. Sasha diz que não somos metades. E eu me pergunto pelas pessoas que acham que são um terço, mas este é outro assunto, mais vanguardista, eu diria.

Ela escreve que ser sósingular significa 'gostar de ser solteiro, mas não necessariamente ser uma pessoa que se opõe a ter um relacionamento; apenas prefere estar sozinha a namorar só para fazer parte de um casal'.


Comecei a ler e não parei mais, em algumas partes me peguei rindo, como nas páginas em que ela classifica atitudes como "comer ervilhas direto da lata", ou "deixar sua pia de louça virar um pântano", como integrantes do comportamento das solteiras que moram sozinhas. Ou ainda sobre pessoas que se casaram consigo mesmas. Uma delas, uma poeta performer, casou-se com ela mesma, com a presença de amigos, num rito celebrado por um sacerdote iorubá. Parece que em Sex and the city a personagem Carrie já havia realizado algo assim.


Pesquisei resenhas sobre o livro e acho que quase todas foram escritas por jornalistas casados, porque ele foi tratado com desdém, por ser considerado raso e bobinho, ou ainda apenas mais uma forma das encalhadas se sentirem melhor. Como se isso fosse pouco.

Mas o livro é inteligentemente leve, e eu sei que isso é possível. Há até um capitulo que ensina como ser "juntosingular", ou seja, como namorar ou casar e continuar mantendo sua identidade sósingular. Um desafio que propõe como solução velhos moldes, como quartos separados em casa. Bonitinha é a hora que fala de coisas que devem fazer os sósingulares que se apaixonam, uma delas é ler cada um seu próprio livro, apenas com os pés se tocando volta e meia, numa confortável tarde de domingo. Porém se essa imagem virar uma constante, e no papel que desempenha os pés masculinos houver um cara (ou garota) que não está nem aí, cujo número nunca aparece no visor do celular e o endereço de e-mail nunca aporta na sua caixa postal... Bem, vá até ao capítulo que fala de Obsessões Românticas e inspire-se para a cura. Claro que logo após ler o libelo eu voltei para a profundidade do Cioran que eu havia abandonado. Quem é Cioran? Ah, este merece uma crônica só sobre ele. Até lá.

posted by MARA CORADELLO 22:41


Sexta-feira, Maio 04, 2007

 

A biblioteca



Mara Coradello




Escrevo esta crônica no primeiro um quarto de hora da segunda-feira. Acabo de voltar de uma curta viagem à cidade de Muqui. Sonho em passar muitos tempos por lá, a escrever e ouvir aqueles pianos que tocam ao cair da tarde. Sem internet, sem celular, sem televisão, ou seja, sem nenhum contato com este mundo que chega em monitores tantas vezes invasivos. Talvez escreva um romance de época.


A cidade tem casas que me doem de tão belas, viveu seu apogeu na época do café, mas não quero falar de exteriores. Como é de meu feitio vou traçar o meu próprio itinerário, um roteiro sentimental da cidade, o que me convém e o que a mim convenceu.


Conheci um homem e sua biblioteca. E nada é mais sagrado para um homem que tem uma biblioteca do que esta mesma. Uma biblioteca é algo do caráter das inutilezas. Caso você não possua uma, não sentirá a menor falta, caso a tenha, nada será mais importante. Soube que um de meus escritores favoritos chegou aos Estados Unidos com mais livros do que roupas. É comum aos escritores _os de verdade_ terem nos livros as vestes mais preciosas. E possuir uma biblioteca é como ter um amor. Quem não tem, contenta-se com outras similaridades, mas quem o possui torna-se exigente e se o perde, na ânsia de outro igual, pode nunca mais se achar.



Este homem eu conheci primeiro pelos livros, uma curiosa biblioteca ao contrário, poderíamos chamá-la assim.


Ele me contou que biblioteca contava com cada vez mais livros novos, ao contrário dos livros encapados em couro que eram de seus avós. E esses livros coloridos e caóticos o irritavam pelas cores cheias de ruído. Então ele desenhou a estante de modo que seria um caracol e as lombadas dos livros ficariam voltadas para fora e da mesa de carvalho do meio, também herança de seu avô, ele veria apenas a parte das folhas dos livros, em branco ou no máximo o amarelado suave do papel pólen. Apenas ao redor da biblioteca, há uma área de circular uma pessoa de cada vez, assim ele poderia ver a lombadas somente na hora de pesquisar e escolher para a leitura. Ou seja: a biblioteca fez silêncio enfim.



No parágrafo acima descrevi sutil o nome do papel que mais gosto, tanto do nome mesmo, quanto da coloração pólen. Há algum nome mais apropriado para portar palavras contidas num livro? Afinal, ler tem este caráter propício a germinar coisas, sensações, paisagens interiores, que sequer sabemos que não conhecemos, antes de ler. Acho que foi uma bela invenção este nome. Encerro-me neste exato momento nesta biblioteca e é para lá que vou em pensamento, sinto muito que ela já tenha um dono, a recrio inteira para mim. Leio deitada em seu divã e percebo que talvez seja pouco o tempo do mundo para ler, justamente por isso ele se torna menos mundo a cada dia.




(crônica de anteontem em A Gazeta, com a ressalva de que aqui eu exibo os espaços que considero uma marca minha, um dia quando os jonais respirarem mais, quem sabe não poderei publicá-las assim...espaçadinhas)

maracoradello@gmail.com
posted by MARA CORADELLO 14:00


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