O caderno branco de Mora Mey

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Segunda-feira, Setembro 17, 2007

 
Do porquê de não publicar nem um livro desde 2003

Tentar reescrever um romance começado há tantos anos, para ser exata quatro, é ler por trás da história de ficção, a minha história de então.
Simplesmente o romance é, até que eu mude, em primeira pessoa masculina, fala de um artista em coma, de quadros que são pintados depois do autor morto e supostamente pelo mesmo autor.

O que acontece é o que vou confessar agora: leio por trás da história fictícia a história que vivi.
Uma histórinha de amor.


Preciso vencer essa resistência e se a narro aqui neste espaço público é para que as palavras sejam impressas no ferro quente do compromisso, na matéria em aço que é a confirmação entre meus pares: vocês.
posted by MARA CORADELLO 16:36

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Domingo, Setembro 16, 2007

 

Lista de resoluções do ano novo, achada agora:



Dieta de perda de 4 a 6 quilos.

Morar sozinha e em dia com aluguel e outras contas

Apaixonar-me e ser correspondida.

Praticar mergulho.


Fazer inglês.

Fazer aulas de direção.

Fazer canto.

Selecionar amigas.

Não falar da minha vida pra qualquer um.

Continuar análise.

posted by MARA CORADELLO 01:26

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Quinta-feira, Setembro 13, 2007

 
Minha última crônica:



O mundo vasto do supermercado
-que não posso comprar



Mara Coradello


"Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas,
e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar.”

Scott Fitzgerald



Acordo e penso em todas as pessoas que podem almoçar fora no domingo e relembro minha mãe a resmungar pela casa que “domingo não é dia de cozinhar”.
Sempre achei a afirmação ligeiramente exagerada, adorava as macarronadas de molhos variados a cada semana, mas neste exato momento,
concordo intimamente e em absoluto. A pia de louça transformada em denso nevoeiro de fazer inveja ao Lago Ness deixa bem claro meu futuro do sábado.
Sim é sábado. E lembro exasperada que tenho um importante lançamento literário de um dos escritores favoritos. Calculo o preço da passagem e escolho comprar berinjelas e outros víveres. Sim, os trocados da passagem farão falta. Sou uma escritora ao pé da letra. Dessas que reclamam do custo de vida e da falta de oportunidades, nesta cantilena nada criativa. Eu que nunca fui lá grande fã dos beats, tenho de me resignar a talvez escrever o texto mais autocomiserativo que vocês tiveram notícia por aqui. Eu mantenho sim a elegância, mas creio na afirmação que abre esta crônica, do Fitzgerald, e procuro falar do que me aturde, do que me provoca realmente, do que me encanta de modo visceral e das pequenas agruras do cotidiano pelas quais tantos passam diariamente. Porque deveria ser tudo amordaçado em silêncio? Para sairmos bonitos nas fotos da posteridade? Para quando nos encontrarmos com o colega de faculdade ostentar o brilho de “ser bem sucedido” como dentes brancos de clareamento ou mais um carro poluente a reluzir nas ruas com as prestações em aberto?

Eu ainda pedalo e torço para que a escrita sobreviva da minha ânsia de não perder-me nas mesquinharias da vida: o preço do café_meu combustível para a escrita, o valor do pão, aquela conta de luz que me sobressalta no meio das noites só tranqüilas quando todas as luzes em aceso me olham.

Aprender a fazer minha própria manicura? Aprender a não sentar-me mais em bares e até a mexer com planinha de Excel? Gastos de um lado, realidade à esquerda e sonhos no meio, confundindo tudo em meio a livros não comprados e viagens nunca sequer imaginadas.

A sorte é que nesses dias aprendi o lugar verdadeiro dos sentimentos e o preço perene da felicidade de se descobrir alheio a obrigatoriedade de ser feliz.
Tenho a certeza de que todos os livros de auto-ajuda são miseráveis em tentar nos fazer esquecer o valor da privação.

Poderia escrever aqui sobre o lugar do escritor e/ou do artista na contemporaneidade. Poderia reclamar do governo e pensar em amenidades para glorificar minha estada nesta coluna. Mas é dia de avaliar o preço do arroz e do feijão. É dia de abandonar até o glamour de culpar ao outro. É dia de ser crédula.
Só que dessa vez, em minhas próprias e mais sinceras verdades.



posted by MARA CORADELLO 16:28

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