Meu coração era um terreno baldio
A única companhia que tenho, além do terreno baldio costumeiro e já notado_não conta_
é um novo hóspede neste mesmo terreno baldio.
A grande noite torna-se maior ainda e ainda é a mesma noite_portanto não conte_
mas o hóspede do terreno baldio me faz lembrar de mim.
Sorrateiro em algum momento deste dia_que eu deveria chamar de ontem, mas hoje
por não ter dormido.
É que o terreno baldio parece comigo e nele sorrateira surpresa surgiu
em algum momento em que eu dormia
no escuro artificial de meu quarto
com estrelas lá em cima
também de artificial fluorescência
estrelas
O hóspede de que falo é a metade serrada de um sofá.
quem o serrou?
o que ele era antes?
quem conseguiu jogá-lo aí, neste terreno que vejo ao esticar meu pescoço
simples e incompreensível como um pescoço
toda a história dos móveis jogados em terrenos.
cadeiras, sofás e camas. Aquelas banheiras antigas que vi na pequena cidade
todo este memorial de restos de casas e de famílias
as pessoas que sentaram neste sofá
alguma vez ele sentiu que faziam sexo?
Nesta noite ele incomodou os vizinhos?
Ou justamente por ser sofá arfou macio?
A verdade que não quero falar é que não desligo
a percepção do sofá
é um convite à minha solidão?
é um transtorno à minha nova e inaugurada solidão?
é um anagrama da colisão de todos nós, uns nos outros
sem acharmos nada
A vida é uma brincadeira de cabra-cega?
Onde estão a luminosidade clara sobre o mar
As palmeiras de minha terra
O sabiá.
O que tenho é um terreno baldio de costas, porque nele há imensas placas de frente para a vida, para a rua.
E nele está a me olhar, os restos podres, usados, abandonados e por demais adjetivados
de um sofá.
Puído de adjetivos e noites passadas assistindo TV e gerúndios.
O pernoite do sofá.
posted by MARA CORADELLO 03:50