Última crônica:
A imobiliária da falta de sutilezas
Mara Coradello
Eneida dizia-se uma mulher sem asteriscos. Com isso ela queria dizer que não fazia segredo do que pensava. Não havia nada escrito em letrinhas miúdas aos pés dos seus pensamentos. Eneida diz agora que não entende por que sua praia favorita está em construção, a sua querida praia onde o vento desfolha os jornais, a praia que poderia alcançar simplesmente caminhando, quase sempre de saia branca. Essa praia agora é um pátio de obras, num dia tão perto do verão oficial, de um tempo que já é verão, até para os incautos que adoram datas e regras.
O que Eneida vê? A praia repleta de barro, esturricada e seus coqueiros marcados com x significam o quê? Que morrerão? Aos homens da obra Eneida queria falar que aquelas árvores estão aqui antes deles ocuparem seus cargos de pouca vontade política. E Eneida vai à praia e vê seus coqueiros favoritos soterrados num desterro de dar dó. Eneida não chora, ela espera paciente e acha que talvez por isso o bairro tem acordado mais calado ainda nas manhãs de domingo. Este mesmo foi um domingo de feriado e o bairro estava em Manguinhos, Praia da Costa, Costa Bela, e tantos outros lugares não seus. O bairro exilado de Jardim da Penha, a tristeza nos nadadores de Jardim Camburi. Os desvios dos andarilhos do calçadão. Tão bom era ver todos no mesmo patamar nas manhãs, com tênis importados ou de chinelos com unhas sujas... O homem que sempre fala bom dia. A loira que vive correndo com seus cabelos cacheados.
Antes da praia Eneida caminha no bairro universitário e vê os canteiros do meio das ruas, antes tão verdes, cobertos de um cimento arrogantemente pintado de amarelo e vermelho. Nada contra o amarelo e muito menos contra o vermelho, mas o que os senhores das obras têm contra o verde cálido que entremeava este cinza obrigatório das ruas?
Eneida suspeita de obras no período imediatamente anterior às eleições e ainda mais de alguém que promete uma ponte sanfrancisqueana em pleno Andorinhas. Logo ao lado da Universidade cada dia mais sucateada, com, só para citar um exemplo, uma piscina imensa a luzir o lodo mais fedorento e a alardear um total abandono.
São verbas de origens diferentes, alguém disse. Eneida então respondeu que a origem é a mesma: a imobiliária da falta de sutilezas, a mesma que remexe na Praça do Papa cimentando mais uma área que poderia ter mais de verde. Ou será que ainda pretendem árvores ali?
Eneida nem quer falar da biblioteca portentosa que promete desencadear novos leitores e novas idas ao Centro. Ela tem a delicadeza de lembrar da grama que entremearia as ruas, e de coqueiros quase cobertos da terra do descuido. E Eneida pede mais elegância com Camburi já coberta pela chaga de ser imprópria para o que obviamente se destinam todas as praias do mundo: um simples banho de mar.
posted by MARA CORADELLO 21:25
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Para quem fala que há tempos não me vê...acima um recuerdo.
E o cenário é o que mais vejo: minha sala, meu pecê, direto na minha webcam.
posted by MARA CORADELLO 23:29
E para quem ainda não sabe:
darei um oficina de crônicas, sábado.
Maiores informações e inscrições no:
maracoradello@gmail.com e no 3225 5988 (depois das nove da manhã)
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Para cada leitor há no mundo uma soma de sentenças, partículas de textos, fragmentos de poesias, frases a esmo_ que salvarão a vida deste leitor. Nada que sequer lembre livros de auto-ajuda. Esses estão classificados pela Ordem como derivados de apenas um livro genial, que não foi escrito pelo autor em questão e por isso alastra-se pelo mundo em forma de ordens narcotizantes.
Prossigo: caso você não escreva aquelas frases, idéias e descrições da pele de sua musa e volte a dormir, esses fragmentos voarão para um enorme panteão localizado bem acima dos Açores, na Biblioteca dos Livros que Não Existem. Algumas vezes a visitamos: nós escritores sem inspiração.
Acontece muito que ao voltarmos da Biblioteca, mais uma vez não escrevemos, nem sempre há blocos de papel por perto, ligar o computador acordaria o amado que dorme... Então as frases retornam para as estantes que não-são, num eterno ir e vir.
Bem... Para cada frase não escrita, mesmo que inspirada em cotidianas idas ao dentista, caminhadas pela margem do Porto de Vitória, uma leitura dileta, uma fatia de bolo de queijo...para cada frase há um leitor desesperado, uma espécie de órfão dessa sentença. Muitos textos servem à várias pessoas. Alguns têm o propósito de fazer o mal. Não há juízo de valor na literatura, como você já deve estar com lesão de esforço repetitivo de saber.
Algumas frases, ou mesmo livros inteiros, servem somente a um leitor. Não há nenhum ganho de bônus por maior quantidade de leitores atingidos por texto. A Ordem desconhece todos os algarismos, exceto os que numeram páginas ou definem idade de personagem e datas.
Há apenas uma norma: sendo você assomado diversas vezes por dia pela construção interna de frases, sem sequer construir um hai kai, ou seja, se você sucumbir às facilidades de uma vida sem escrever ... Meu amigo, você há de se tornar um ser sem elo com a Biblioteca dos Livros Não Escritos. O que não se sabe se é bom ou ruim, e de fato isso não importa. É bom que escreva, apenas porque o leitor órfão de suas frases, em primeira instância, é você mesmo.
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posted by MARA CORADELLO 03:23