O efeito sanfona no amor
Mara Coradello
Vejo Vitória através dos vidros do grande ônibus amarelo, cujas janelas têm nesse momento a vista digna de um fantástico hotel cinco estrelas. Vejo Vitória e Vila Velha e assim descubro meu Espírito Santo lindo, e me apaixono por minha cidade novamente. Pela paz que encontrei aqui, pela praia apelidada de Havaízinho que comoventemente se abre pequena para um mar tão vasto quanto vertigem e voragem.
Por vezes odeio Vitória sim, e detesto a configuração pequena e puramente política de alguns que ordenam que qualquer divulgação de Vitória não inclua a Terceira Ponte, e de que qualquer descritivo de Vila Velha tem de frear bruscamente o texto quando deveria chegar aos atributos de Vitória, aqui, tão perto. As cidades parecem em continentes distantes em todo material de divulgação turística das duas, só se unem quando falamos do Estado todo do Espírito Santo.
Mas volto ao assunto daqui: odeio e amo Vitória e tantas coisas, que poderiam ser enquadrados como sentimentos bipolares o que sinto. Mas que mania é essa da psiquiatria reles de exterminar a poesia? E aprisionar arroubos em tarjas? Porque sei que é tão vital amar e odiar ao mesmo tempo, assim como te amo e te odeio, e tantas vezes idiossincraticamente odeio e amo as mesmas características, o mesmo perfume. Te acho bonito fumando e odeio teu excesso dos mesmos que tiram minutinhos seus de mim. Imagina quantos beijos a menos em cada cigarro? Quantos passeios a menos com Catita em cada tubinho maldito de papel, pólvora, nicotina, alcatrão e tabaco. Amo sua postura impecável, da mesma forma que por vezes detesto seu ar soberbo. É assim o amor, ou como bem definiu a amiga Cris Hatab, o efeito sanfona no amor. A gente ama e detesta tantas coisinhas, revira atitudes achando defeitos, enumera qualidades de olhos fechados à pequena bagunça que virou minha mesinha de granito, ou ainda ao sumiço das meias de usar com tênis.
São tantas em mim e tantos em você, dois deles se encontram em dias errados e pronto, não tem jeito, brigam com a mesmíssima paixão com que se amam. São tantas disposições diferentes de humor e de compreensão das diferenças e de alteridades. Porém desconfio que o pior de conviver seja justamente o que temos de igual. O espelho e seus reflexos que ofuscam e confundem, num labirinto estreito e asfixiante. Mesmo assim ando com pena daquela que fui, como disse Jana:“tão sozinha que tecia redemoinhos ao redor de si mesma”, aquela que fui antes de você.
O que sei é que amo tantos de você, e mesmo aqueles com os quais implico, que o certo seria falar: eu amo tantos você.
posted by MARA CORADELLO 10:03
Pela primeira vez publico a crônica praticamente em tempo real da
publicação no Jornal A Gazeta, por conter links para os blogs citados.
Pequena retrospectiva literária de 2007
Mara Coradello
Canais de televisão listaram os fatos importantes de 2007, críticos de música das canções e tantos outros de suas memórias particulares. Todo final de ano, pesa esta medida inventada pelos fenícios, egípcios ou babilônios: o calendário.
De qualquer forma vou fazer minha atrasada retrospectiva que tem cara de perspectiva. Vou falar dos escritores capixabas, sequer publicados em papel, que li neste ano, no meio tão mal falado dos blogs. Eu particularmente acredito, como dito naquela palestra pelo poeta Alexei Bueno “a internet é igual ao Exu na macumba: não faz nem para bem nem para mal; você utiliza como quiser”.
O primeiro citado, Elton Pinheiro, foi meu colega de indicação no Prêmio Taru, uma premiação simpática e impecável. Pois bem, Elton escreve com uma dicção bela e original no blog Polifonia (www.eltonpinheiro.blogspot.com). Vale muito a visita. Gosto também da delicadeza da Julia Emerick que chamou o que escreve de “sussurros da alma”. Peço que ela continue no seu www.brilhando.blogspot.com. Para contrastar, que tal a acidez engraçada de Rodrigo Oliveira na sua Casa de Loucos (www.berghof.blogger.com.br)?
Um que conheço desde o ano passado é Saulo Ribeiro, com seu personagem Duda Bandit, um beatinik lírico, que bebeu, além de cerveja, dos clássicos da boa literatura. Leia em www.deitandocabelo.blogspot.com.
E que tal conhecer as reminiscências de André Oliveira, cronista que tem poucos escritos publicados, mas que já desponta com exemplar cuidado e criatividade: www.arasura.blogspot.com ?
Até quem abandonou o blog, como Thiago Raft, ora com palavras líricas, ora satíricas no www.feefaca.blogspot.com merece ser lembrado, porque sempre existem os arquivos.
Não poderia deixar de fora blogs que descobri em 2006, mas mantiveram a forma em 2007, como o do Carlos Calenti, que mudou para o Rio de Janeiro, e ainda hoje continua com seu texto fluido e de sinceridade tocante. Ele “fala” justamente da mudança em textos mais recentes: www.plocker.blogger.com.br .
Por falar em sinceridade, é a meu ver, uma marca dos novíssimos escritores capixabas destes blogs, a sinceridade sem cair no vazio umbiguista do confessional, a exemplo cito Kênia Freitas: www.provento.blogger.com.br .
Fecho com a leveza da muito mais que publicitária Elisa Ribs, do www.prolixaporamor.blogspot.com e com o agridoce da moça misteriosa, Cecília ou não, do www.dansesurlamerde.blogspot.com .
Para tornar mais fácil para o internauta publicarei todos os links no meu. Sim também tenho um blog, o www.cadernobranco.blogger.com.br . E feliz 2008 com muitas leituras, virtuais ou no papel.
posted by MARA CORADELLO 00:16