Pseudocrônica
Mara Coradello
Vamos fazer um movimento? Sim, uma dessas revoluções de improviso. Com um bom jazz de Brubeck. Que limpo de referências com um bom solo de caixa de fósforos. Vamos pernoitar insones? E tecer no escuro pequenas bolhas de luz, trazendo nos dedos as unhas intactas de não roer. Vamos ouvir os ruídos de vitamina C efervescente em crianças pequenas sem carências? Vamos aglutinar os dias onde as alegrias são coalhadas? E unir todas as alegrias, na pequena indiferença às arestas, brechas, recônditos, desvãos. Uma alegria compacta, lisa, rutilante, perolada, de brilho quase leitoso, como um capô de fusquinha. Luzir. Vamos luzir incipientes? Vamos ser jovens, o novo, e cálidos para sempre? Vamos marcar encontro com o acaso? Sabe como funciona? Assovie ao caminhar, sem óculos escuros, num dia em que o sol franza sua testa. Tropece sem querer nos interstícios da calçada.
“Penetra surdamente no reino das palavras, lá estão as coisas que nunca foram ditas”. As novidades de verdade estão nas palavras, que parecem velhas ao contrário: neologismos, muitas vezes, são palavras que fizeram uma plástica infeliz.
O ruminar do tempo não polui os mares das palavras. Elas são banhadas em claras de ovos, em doces portugueses caudalosos, em fremir ansioso de ventura e do toque sincero de asas de borboletas abestalhadas nos cílios das estátuas: substituem os momentos, as palavras, e assim intensamente os causam.
E a palavra é a pipoca no óleo quente da vida. Se trancar palavras na mão elas morrem, como pássaros antes quentes borbulhando o ruído de suas penas na palma da mão. Sufoca pegar palavras, mas ao contrário da metáfora do pássaro, prender palavras sufoca quem as segura.
O melhor invólucro das palavras é o mesmo cristal que se parte ao ruído silábico. Inaudito para matérias mais duras.
Escapista eu? Até gente tem saídas de emergência: buracos no nariz, para sair bolhas de água tônica, olhos por onde escapa a luz interna.
posted by MARA CORADELLO 18:12
Crônica do dia 30 de janeiro.
Na quinta que vem posto uma nova, que escrevo agora.
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Histórias Acerca de Botões*
Mara Coradello
Ao ler isto adicione a informação da chuva.
E não o chame de confessional, o chame de autópsia.
Uma história universal do amor ao pai, ao verbo e à memória.
Recorte as palavras que mais gosta e coma.
Recomendo que chores.
Não pelo texto. Pela janela ao largo das folhas.
Uma menina mora num quarto com muitos botões. Eles estão num enorme pote de maionese comprada no macro. Numa promoção.
A avó guarda rancores, a lembrança dos passos do vovô Dorico às 5 da manhã e botões. São sobras das roupas dos oito filhos.
Botões solitários que a menina acha iguais às pessoas sem centro no mundo. Os botões parecem querer olhar através de seus furos para linhas.
Em seus furos para eixos de uma ocupação.
Um enorme botão dourado de farda que a menina amedontra-se com o brilho, estamos em 78 e há uma série de botões iguais e pequenos que recebem ordens desse botão de farda.
Um botão que tem arabescos que escondem uma pedra azul: o príncipe.
Uma pérola com tons de um rosa que nunca houve, essa é a princesa.
A menina cria histórias com estes botões. Passa horas no quarto.
Assim que chega à casa da avó corre para o quarto e demora-se mais e mais ali.
Parece morar com as histórias.
Dizem que a menina se esconde do que há lá fora, nas ruas de pedras irregulares no bairro do subúrbio.
Mas a menina sabe que para ela esse sempre será o mundo que ela verá. Um mundo inteiro nas córneas das palavras.
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Estou no Rio de Janeiro e me mudei 5 vezes em 3 anos.
Minhas coisas diminuem em cada mudança. Vendo o colchão, vendo meu fogão.
Vendo minhas palavras a barganhas que chegam em cheques novos e cheirosos de rosa. Tudo cabe em caixas de pão que soltam farelos que alimentam formigas felizes por estar entre livros e trigo.
Elas sabem que isso basta.
Eu não. Não tenho conta no banco, não tenho cerca de dentes, cartão de plano de saúde e helicópteros são alvejados por meninos comandos em ação que vendem drogas que serão usadas por pessoas que colocam trancas em suas casas para cheirar. Mal.
Mas num dia desses no metrô vi um guarda trazendo um casal pela mão.
Vi que os dois importavam apenas para os dois.
Me senti egoistamente feliz podendo olhar durante todo o trajeto sem vistas, Glória, Catete, Largo do Machado, Botafogo, Siqueira Campos, Arcoverde, olhar para eles sem ser vista.
Sem que eles jamais soubessem o quanto eram belos.
Vi a mão deles entre suas e um dialeto novo entre seus narizes e ela parecia com os olhos parados para o alto e brancos numa espécie de platô onde é possível chegar quando se ama.
Eles eram cegos.
* Esses são alguns episódios publicados originalmente e integralmente em 2005, na Editora Agir, na Antologia Paralelos: 17 Contos da Nova Literatura
posted by MARA CORADELLO 09:17