Wanderlust
Mara Coradello
Todas as cidades se parecem em dias de feriado? Talvez. Quem sabe seja algo na expressão das poucas pessoas que vemos nas ruas. A mesma que é mais apropriada nos mendigos, que enfim, estão em dias seus. Dias de não fazer nada. Alijados de nossas tarefas diárias, temos tempo de ver melhor esse nada. Talvez nem todas as cidades sejam iguais em dias de feriado. Não em qualquer bairro você pode ir andando até à Liberdade. E talvez seja mesmo singular em seus trejeitos e em sua história, o mendigo que passa com sua mala de rodinhas, sua vida sobre rodinhas. Ele nos fala: feliz casamento! Não estamos vestidos à caráter para festa alguma. É algo na combinação de dois capixabas andando nas ruas paulistanas com suas expressões de festa que o faz desejar vida longa a essa festa. A cidade parece dormir. E a cidade é exatamente igual a todas em sua função de aglomerar pessoas, de organizar algo, que muitas vezes recai no fracasso desse intento. Sem termos o trabalho, o escritório, e e-mails importantes para ler, ficamos perdidos aqui, mesmo com os trinta e sete teatros tão próximos. Mesmo que o mais novo filme do Wong Kar Wai esteja em cartaz perto de casa, assim como o vencedor do prêmio do júri popular de Cannes em 2007: Irina Palm. Mesmo que as ruas signifiquem uma profusão desordenada de esquinas desconhecidas. Há algo de familiar nesta cidade. Nesta segunda-feira de feriado nublado. Nestes cães que passeiam com seus donos, levemente mais gordos que os de Vitória. Os cães, não os donos. Mesmo que a vista agora seja uma alucinação de concreto. Que seja a Baía da Guanabara ou Montmartre. Ou uma casinha no interior de Minas. O que há de tão igual assim em todos estes lugares onde estive ou não? Nada além do que acontece de igual em todas as paisagens onde me inscrevo: eu. E ser tão definitivamente “eu” é saber que a casa se resume a pouca coisa, e se as levo comigo, estou em minha habitação mais familiar. Nesse “poucas coisas” claro que há pessoas. Estamos em casa sempre ao lado de algumas pessoas. As verdades mais simples são as que mais demoramos a aprender. Então narro o que vejo para mim mesma. Para habituar-me antes da volta iminente. Há pessoas vestidas de modo igual pelas ruas, há um cinza insistente no céu, houve um acidente com um motoboy, há inúmeros teatros, e um deles é o Oficina. Há a padaria da esquina onde não encontramos leite. E existe sua saudade de Vitória, por estar aqui há mais tempo. E existe minha ânsia de viagens, e há até uma palavra em alemão que traduz essa vontade irresistível de viajar: wanderlust. Que por sinal é uma música daquela sua cantora favorita. Que por sinal me faz pensar que todos os lugares são iguais, porque quem estará vendo-os e sentindo-os são estes meus olhos entediados que insistem em ver letrinhas no mesmo português e em tudo. Mesmo assim, há wanderlust. E há a convicção triste de que eu serei sempre igual.
posted by MARA CORADELLO 12:20