O caderno branco de Mora Mey

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Quarta-feira, Junho 11, 2008


Eis, enfim, minha última crônica no jornal A Gazeta, de Vitória, Espírito Santo.

Pra quê sofrer com despedida?


Mara Coradello

Não foram vocês. De modo algum. Nem a ausência de e-mail oriundos de algumas crônicas, nem o excesso resultante de outras. Nem as críticas, nem o que nem poderia chamar de crítica: comentários entreouvidos em mesas de bar, queridos amigos me apontando erros de sintaxe, de gramática, de posicionamentos, de estilo. O que posso dizer, é que por melhor que pareça, tudo finda. O que posso fazer, é agradecer a oportunidade.
E contar que agora tenho dois livros para terminar, muito trabalho em uma pilha que cresce a revelia de minha preguiça matinal e muita vontade de dar lugar a outro alguém. Como Cazuza fala na música Cartão Postal: “Pra quê sofrer com despedida
Se quem parte não leva/Nem o sol, nem as trevas/E quem fica não se esquece tudo que sonhou/Sabe/Alguém quando parte é por que outro alguém vai chegar/Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar...Pra quê sofrer com despedida?”.
Outro(a) cronista, ou quem sabe, pretenso(a) cronista, como eu, vai chegar e trazer novas palavras, novos pontos de vista.
Eu ainda teria o que falar? Talvez. Falar sobre a tristeza de ver aquela livraria, La Selva, da Praia do Canto, fechar. E a descoberta, estarrecida, de que o bairro mais cosmopolita da cidade tem apenas uma livraria. É isso mesmo? Ou ainda falar sobre o fechamento da loja de Cd´s na esquina onde pego meus ônibus, agora substituída por uma loja de roupas masculinas. Sem dúvida um sinal dos tempos.
Poderia ainda falar de amores que não se resolvem, o que me foi pedido pela então editora deste caderno, Ana Laura Nahas, no início de minha colaboração neste Jornal. Só que nestes dois anos e meio mudei. Talvez a potência desses anos tenha sido dilatada pelo auto pensar-me, modo escolhido por mim para escrever as crônicas.
De fato o que posso ressaltar como maior ganho nestes mais de dois anos, foi redescobrir a crônica. Por tentar estar à altura da função, estudei Carlinhos de Oliveira, estudei a adorável Márzia Figueira, estudei Rubem Braga, as crônicas de Hilda Hilst, as de Paulo Mendes Campos, li e reli A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector e abri bem meus olhos para a Cidade de Vitória. Estudei mais gramática, adorei a adrenalina do fechamento, surrupiei histórias alheias e um de meus leitores hoje é meu companheiro de todas as horas. Mas somente de uma coisinha posso me orgulhar: fui absolutamente honesta. E sou honesta ao dizer: adorei este lugar. E continuem valorizando o que não tem exatamente o título de jornalismo, mas é o mais eficaz meio de fotografar o espírito dos tempos: a crônica. Tomara mesmo que a cada dia seja mais valorizado o delicado da vida. Certamente as agruras do primeiro caderno cederão lugar a mais beleza no Caderno Dois. Um abraço a todos.


Mara Coradello pode continuar ser lida na rede, no blog:

www.cadernobranco.blogger.com.br


E meu novo e-mail agora é: coradelloramaarrobagmail.com
posted by MARA CORADELLO 14:33


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